[R-P] CRESCIMENTO ECONÔMICO, O SETOR ELÉTRICO E O MITO
José María Cavalleri
ingcavalleri en hotmail.com
Jue Dic 14 06:41:17 MST 2006
Excelente artículo de Ilúmina
O crescimento econômico........e o mito
N O R D E S T E
O CRESCIMENTO ECONÔMICO, O SETOR ELÉTRICO
E O MITO DOS INVESTIMENTOS PRIVADOS
Até meados dos anos noventa do século passado, a expansão do
sistema de geração de energia elétrica brasileira obedecia a um planejamento
centralizado, de modo a garantir a oferta para atender o natural crescimento
da demanda. Os respectivos investimentos eram então realizados por empresas
estatais, segundo planos definidos sob coordenação da Eletrobrás.
Com a implantação, pelo governo neoliberal de FHC, do novo modelo
para o setor elétrico nacional baseado estritamente na filosofia de mercado,
onde a energia elétrica torna-se apenas uma mercadoria, extinguiu-se todo o
processo de planejamento, ficando a expansão da geração a depender apenas
dos ditos “sinais de mercado”, que supostamente iriam assegurar a realização
tempestiva pela iniciativa privada dos investimentos em novas usinas
geradoras.
Para citar palavras então em voga entre os defensores daquele
modelo, um dos seus princípios básicos era justamente o “estabelecimento da
competição no segmento da geração, com o objetivo de estimular o aumento da
eficiência e a redução de preços”.
As empresas estatais foram então proibidas de construir qualquer
nova usina e, inclusive, tiveram de paralisar aquelas cujas obras estavam em
andamento. Afinal, de acordo com a nova ordem, todas iriam ser privatizadas.
No entanto, o que veio em seguida todos sabem. Os investimentos da
iniciativa privada em novas usinas não apareceram como eram esperados e um
pesado racionamento tornou-se inevitável durante nove meses (01/06/01 a
28/02/02). Quiseram colocar a culpa em São Pedro, mas não foi possível, pois
tudo estava muito claro – faltavam às novas usinas antes previstas. As
conseqüências negativas daquela crise energética para a economia brasileira
foram incomensuráveis. Ao mesmo tempo, a pretendia redução de preços também
não apareceu e, de um modo geral, as tarifas passaram a apresentar
sucessivas e absurdas elevações bem acima dos índices de inflação.
Assim, o decantado modelo de mercado “fazia água”. Tentou-se um
Comitê de Revitalização para reanimar o doente. Então, já no último ano do
governo, como remédio, determinou-se providências a toque-de-caixa para se
promover a cisão e privatização das três grandes empresas geradoras
federais. Mas, a reação foi forte e no final resolveram deixar o assunto
para decisão do novo Presidente que iria assumir em 1° de janeiro de 2003.
Paralelamente, na campanha eleitoral de 2002, o candidato Lula, que
viria a ser eleito, comprometia-se com uma proposta de alteração daquele
modelo. Na essência, o principal item a ser atacado seria a eliminação da
filosofia de mercado para a energia elétrica, que teria restaurada a sua
característica fundamental de serviço público, conseqüentemente com tarifas
vinculadas a custos e não a preços de mercado.
No entanto, as mudanças que de fato foram introduzidas pelo novo
governo, algumas das quais até bastante positivas, no principal não chegaram
a retirar do modelo as suas características de mercado. A energia elétrica
continuou a ser considerada uma mercadoria, uma commodity, com preços
formados pelas leis de mercado. As privatizações foram paralisadas, mas o
setor continuou a ser destinado para atuação preferencial da iniciativa
privada, onde as empresas estatais federais somente podem participar de
novos empreendimentos em consórcio com parceiros privados e obrigatoriamente
de forma minoritária. Além disso, continuaram impedidas de recorrer a
financiamentos de bancos oficiais, particularmente do BNDES.
Em resumo, o modelo resultante da legislação aprovada em 2004
apresentou alguns avanços, mas não feriu a questão essencial, permanecendo
assim com características de mercado ou, no mínimo, híbridas, mas nunca de
serviço público. Na verdade, a criação da Empresa de Pesquisa Energética
(EPE) foi um grande passo, permitindo a retomada do planejamento da expansão
que, no entanto, tem função apenas indicativa, pois não pode definir quem
constrói o quê, ficando as obras subordinadas aos “leilões”.
O fato é que, desde a implantação do modelo mercantil até agora,
final de 2006, não se construiu nem se definiu a construção de nenhuma nova
usina geradora de grande porte, capaz de garantir o aumento de consumo
decorrente de um desejável crescimento econômico. Durante todo este período,
implantaram-se apenas hidrelétricas de pequeno e médio porte e o equivocado
PPT, suportado no gás natural, combustível não abundante no País. Em
conseqüência, o Brasil vem convivendo com dois problemas bastante negativos
para o seu desenvolvimento. De um lado, uma permanente ameaça de crise de
abastecimento pela falta de investimentos em novas usinas geradoras e do
outro, constantes elevações reais de tarifas incompatíveis com as
necessidades da economia nacional e com o nível de renda da população.
Aliás, como tem sido divulgado, o consumidor brasileiro já está pagando uma
das tarifas mais altas do mundo, o que representa um enorme contra-senso
para um sistema de base hidrelétrica. E, segundo se anuncia, a tendência
ainda é de forte aumento para os próximos anos.
Agora, quando inicia o seu segundo mandato, para não perder o bonde
da história, o Presidente Lula manifesta o desejo de fazer a economia
nacional finalmente deslanchar e crescer as taxas relevantes, superiores a
5% ao ano e, assim, quebrar a seqüência medíocre da média em torno dos 2,5%
ao ano que caracterizou os últimos 25 anos do País, incluindo os quatro do
seu primeiro mandato. Entretanto, o Presidente acabou caindo na mesma
armadilha que apanhou FHC em 2001. Sem energia elétrica não haverá
possibilidade de crescimento importante. E, se o Presidente quiser fugir
dessa “maldição”, terá de promover mudanças, pois, mantidas as atuais
características do modelo do setor, não haverá, como até hoje não houve,
expansão do sistema de geração em níveis suficientes para garantir o aumento
de consumo requerido por um crescimento econômico de 5% ou mais. E, se
houvesse, não seria com tarifas compatíveis com as necessidades do próprio
processo de crescimento.
A razão determinante desta impossibilidade é que o setor elétrico
está dependente da iniciativa privada e esta, ao contrário do que se
apregoa, não dispõe de capital para bancar os pesados investimentos
requeridos para construção de grandes usinas. Isto mesmo, é preciso que se
reconheça esta realidade. Normalmente, costuma-se afirmar que o governo, ou
o estado, não possui recursos para tal fim e induz-se que a iniciativa
privada possuiria. Mas, se é verdade que o governo não dispõe desses
recursos, também é verdade que a iniciativa privada igualmente não os tem.
Assim, para executar os projetos de grande envergadura, os
empreendedores privados iriam tentar mobilizar os capitais necessários
através de financiamentos em bancos privados nacionais e estrangeiros, ou
estatais, como, por exemplo, o BNDES, tal como ocorreu na maioria dos casos
das privatizações. Acontece que, nas privatizações, como as empresas estavam
operando e produzindo receitas, em geral, antes dos empréstimos começarem a
serem pagos, através de artifícios legais em processos de incorporação e
desincorporação entre controladoras, controladas, coligadas, etc., as
dívidas contraídas pelos compradores das empresas estatais foram
transferidas integralmente para as próprias empresas que, assim, ficaram com
o encargo de pagar pelas suas próprias aquisições, restando para os
“investidores” apenas o controle das respectivas empresas e os
correspondentes dividendos.
Entretanto, este tipo de operação obviamente traz um custo
adicional para as empresas, a ser coberto pelas suas tarifas que têm de
produzir receitas suficientes para cobrir todos os seus custos normais e
novos investimentos, assegurar o lucro dos acionistas através da
distribuição de dividendos e, ainda mais, gerar os recursos necessários para
amortizar as dívidas citadas. Pelo menos no caso das empresas do setor
elétrico, os montantes envolvidos são vultosos, exigindo em conseqüência
taxas de retorno muito elevadas para os empreendimentos. Na prática, esta é
uma das principais razões das altas tarifas cobradas atualmente no setor
elétrico e no das telecomunicações (ver artigo Privatização Não É Solução,
de 30/11/06, divulgado no site www.ilumina.org.br).
No caso dos grandes projetos para expansão do sistema de geração,
como as grandes hidrelétricas, por exemplo, a questão dos financiamentos
resulta ainda mais complexa do que nas privatizações. Além dos grandes
volumes dos recursos envolvidos, os prazos de execução das obras e dos
conseqüentes desembolsos são muito longos, seis, oito ou mais anos até que o
empreendimento entre em operação e comece a produzir receitas. Com prazos
desta ordem, os custos financeiros tendem a crescer enormemente e isto
dificulta sobremaneira a montagem dos projetos de financiamento, podendo até
inviabilizá-los. E se executados, os custos da energia gerada por tais
usinas e as conseqüentes tarifas resultam, naturalmente, bastante elevados.
Não seria por acaso, que os atuais investidores do setor energético
brasileiro defendem taxas de retorno superiores a 15% para o cálculo dos
valores de referência dos leilões de “energia nova”. Houve até quem
reclamasse porque, em recente leilão, consórcio formado por empresas
estatais e privadas teria apresentado oferta vitoriosa para algumas pequenas
hidrelétricas com a consideração da taxa de retorno da ordem de 8%. Ocorre
que a pretendida taxa de retorno de 15% significa recuperação do capital em
apenas cinco anos, o que é absolutamente incompatível com um serviço de
utilidade pública como a energia elétrica, especialmente para o caso dos
grandes investimentos com longos prazos de maturação como os grandes
projetos hidrelétricos com múltiplas finalidades. Além disso, para o setor
elétrico a consagração de taxas de retorno de 15% inviabilizaria
definitivamente a desejável modicidade tarifária.
Portanto, do que foi exposto, pode-se concluir que para garantir a
energia elétrica necessária para manter um crescimento anual da economia
sustentado em patamares de 5% ou mais, o Presidente Lula deverá introduzir
alterações no modelo atual do setor elétrico de forma a, respeitados os
contratos vigentes, restaurar a sua função específica de serviço de
utilidade pública e, assim, definir que cabe ao poder público a
responsabilidade pela garantia do abastecimento da energia elétrica
requerida para o bem estar e o desenvolvimento da sociedade brasileira,
mantendo, entretanto, o sistema aberto à plena participação da iniciativa
privada, porém de caráter complementar. O exercício dessa responsabilidade,
que não poderia ser entendida como um privilégio, mas sim como um encargo,
seria atribuído à Eletrobrás através das suas subsidiárias especializadas
CHESF, FURNAS E ELETRONORTE, as quais possuem receitas próprias e geram
recursos operacionais suficientes para assumirem a execução dos grandes
projetos hidrelétricos necessários, isoladamente ou em associação, seja
entre si ou também com capitais privados. As referidas geradoras, com a
participação direta da holding Eletrobrás, também teriam plenas condições de
complementar seus recursos próprios com financiamentos e outras formas de
crédito, no País e no exterior, de modo a viabilizar nos prazos exigidos
todos os recursos necessários.
As providências são urgentes, pois a capacidade de geração de
energia garantida do sistema interligado nacional está se exaurindo pouco a
pouco e, como já vem sendo divulgado, caso não sejam tomadas medidas
imediatas, nos próximos anos poderão vir a ocorrer sérios problemas como
aqueles de 2001.
Recife, 05 de dezembro de 2006.
Eng. José Antonio Feijó de Melo
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