[R-P] César Benjamin sobre el PT y Lula

Nestor Gorojovsky nestorgoro en fibertel.com.ar
Mie Jun 22 08:27:59 MDT 2005


[Pocos días atrás, Susana Lischinsky nos hacía llegar una nota donde 
se explicaban los motivos por los cuales el gobierno de Lula estaba 
bajo ataque de la prensa plutocrática.  Hoy, envío una nota de César 
Benjamin, que intenta reconstruir, con amargura, los caminos que 
llevaron al PT a esta situación.]

Triste destino

César Benjamin* 
16 de junho de 2005

Retornei do exílio em 1978, antes da anistia, animado com a retomada 
do movimento operário e o fortalecimento do movimento democrático no 
Brasil. Como muitos da minha geração, dediquei meus melhores 
esforços, nos anos seguintes, à construção do PT. Fui membro da 
direção nacional. A primeira eleição presidencial depois do regime 
militar, em 1989, encontrou-me na linha de frente. Chorei o trauma de 
uma derrota politicamente fraudulenta. Nos dias seguintes ao 
resultado, junto com cerca de 6 mil militantes e simpatizantes do PT, 
fui para a porta da Rede Globo de televisão, no Rio de Janeiro, 
protestar contra a edição do último debate entre Lula e Collor, a 
exibição de seqüestradores do empresário Abílio Diniz com camisetas 
do PT e a manipulação de uma mulher pobre e ressentida, que havia 
recebido dinheiro para macular a vida pessoal do nosso candidato. 
Viajei em seguida a São Paulo, onde encontrei Lula. Tivemos um 
diálogo curto, que nunca esqueci. Lula me disse: "Cesinha, sabe quem 
me ligou nesses dias? O Alberico, da Globo. Jantei com eles 
anteontem. Derrubamos quatro litros de uísque. Eu pedi que não se 
preocupassem, que estava tudo bem entre nós. Não vou brigar com a 
Globo, não é, Cesinha?" Apesar dos anos passados, a citação é 
textual. Fiquei muito perturbado ao saber, pelo próprio Lula, que, no 
mesmo dia em que a militância do PT protestava na rua, para defendê-
lo, ele "derrubava quatro litros de uísque" com a direção da emissora 
que o havia agredido e humilhado, reiteradamente, nas semanas 
anteriores. A conversa serviu, para mim, como um sinal amarelo sobre 
o caráter do nosso líder. Mas sua imagem só desmontou definitivamente 
em 1994, quando bancos e empreiteiras começaram a financiar 
pesadamente o PT, à revelia da direção nacional e da militância, 
mantidas na ignorância dos novos esquemas paralelos.

Começou então a ascensão de uma "esquerda de negócios", fenômeno novo 
em nossa história. Incentivados e promovidos a cargos de direção, os 
"operadores" ajudaram a consolidar o poder da Articulação no PT. As 
relações internas foram fortemente contaminadas pela circulação de 
dinheiro, em geral para financiar campanhas e garantir lealdades. A 
honra de pessoas e o cadáver de Celso Daniel ficaram no meio do 
caminho, mas Lula chegou onde queria chegar. Depois de vários anos de 
sucessivas demonstrações de vassalagem, foi ungido. (Brizola, que 
enfrentou a Globo em defesa de Lula, foi destruído.) O PT levou para 
a Presidência da República as mesmas práticas testadas e aprovadas na 
luta interna, mas agora em escala muito ampliada. Os operadores 
passaram a operar freneticamente, aliás em ambiente propício. O que 
já foi divulgado é uma pequena fração dos malfeitos. Lula encontrou 
pronta uma forma espúria de organizar o poder político da Nação e, em 
vez de lutar para alterá-la, como era sua obrigação política e moral, 
adaptou-se a ela. Forças de natureza supranacional, representantes 
dos nossos credores, continuaram a ocupar o Banco Central e o 
Ministério da Fazenda; a partir dessas posições, manejando as 
políticas monetária, cambial e fiscal, bem como a execução do 
orçamento, elas controlam e subordinam a ação de todo o Estado 
brasileiro. O Legislativo continuou a ser o espaço onde se expressam 
demandas de natureza subnacional, negociadas caso a caso, na margem, 
de acordo com a necessidade de composições políticas em cada momento. 
O aparelho de Estado continuou a ser tratado como butim. E o povo 
pobre continuou a receber as migalhas das políticas compensatórias. 
Nesse arranjo, nenhuma instância cuida seriamente dos interesses da 
Nação, que por isso permanece à deriva. É assim que se faz política 
no Brasil.

A Presidência da República, porém, é uma instância muito complexa, 
para onde convergem todas as demandas e interesses. Na ausência de um 
projeto qualquer, inexiste um eixo ordenador das negociações, de modo 
a impor limites aos apetites de cada parte. Lula e o PT submergiram 
na política do varejo, atendendo ou deixando de atender cada 
interesse conforme as pressões do momento, cada vez mais ponderadas 
pela grande meta da reeleição, a única que de fato os interessava. 
Com o tempo, o governo foi se tornando inconfiável para todos. E 
cometeu o erro fatal: deixou de honrar a palavra empenhada, rompendo 
assim o primeiro mandamento de qualquer cosa nostra. O deputado 
Roberto Jefferson deu o troco.

Fala-se agora em reforma política. É mais um blefe. O problema não é 
de novas regras formais, feitas, como as outras, para serem burladas, 
mas de conteúdo. O esquema atual é sustentado por uma aliança 
paradoxal, que vem sendo renovada em cada eleição, dos mais ricos, 
que comandam sempre, com os mais pobres, que apenas votam a cada 
quatro anos. Essa aliança tem como alvo preferencial o mundo do 
trabalho e suas instituições. Os direitos associados ao trabalho, 
jamais universalizados, são denunciados como privilégios, num país em 
que os verdadeiros privilegiados são invisíveis à grande massa da 
população. O ressentimento popular contra a desigualdade é usado para 
destruir as ilhas de cidadania, que deveriam ser justamente os pontos 
de Arquimedes onde a Nação poderia apoiar suas alavancas para 
desenvolver-se, puxando os que ficaram para trás.

Collor inaugurou essa aliança no terreno simbólico. Fernando Henrique 
deu seqüência a ela, utilizando-se do Plano Real, que permitiu uma 
convergência momentânea de interesses tão díspares. Hoje, Lula é quem 
faz a ligação, que agora é simbólica (pelas origens dele) e material: 
oferece por ano R$ 150 bilhões em juros para os mais ricos e R$ 10 
bilhões, pulverizados, em bolsa-família para os mais pobres. Cumpre 
bem esse papel. Não será atingido por nenhuma investigação. Está 
blindado. Mas é refém.

Triste destino, o do PT: em 1989, apontava que a aliança correta, 
aquela capaz de retirar a Nação da crise, tem de ocorrer entre o 
mundo do trabalho e da cultura, de um lado, e os mais pobres, de 
outro, com a subseqüente reforma de instituições e costumes. Em 2002, 
tornou-se um instrumento da aliança espúria que mantém o Brasil em 
crise crônica. Continuará a existir como uma legenda a mais na 
política institucional, cada vez mais distanciada da vida do povo. É 
tudo melancólico e patético para quem, algum dia, sonhou em mudar o 
país. Estamos assistindo ao fim de um ciclo na existência da esquerda 
brasileira, um ciclo que não deixa legado teórico, político ou moral. 
Resta saber como e quando ela se recomporá. Seja como for, o PT 
pertence ao passado.

* César Benjamin é editor e autor de A opção brasileira (Contraponto, 
1998, nona edição) e Bom combate (Contraponto, 2004).


Néstor Miguel Gorojovsky
nestorgoro en fibertel.com.ar

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"La patria tiene que ser la dignidad arriba y el regocijo abajo".
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