[R-P] Crise
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Lun Sep 16 15:46:24 MDT 2002
Colapso dos EUA é sintoma de crise de longo prazo
GILSON SCHWARTZ
ARTICULISTA DA FOLHA
Criador de expressões que fizeram história, como "exuberância irracional" e
"ganância infecciosa", o presidente do Fed (banco central dos EUA) não está
se saindo tão bem para explicar sua impotência diante da crise que se
prolonga. Pior, começa a ficar perdido quando tenta justificar por que não
agiu diante da bolha que ele mesmo, em 1996, caricaturou como "exuberância
irracional".
Na semana passada, Alan Greenspan declarou que não havia meios de
identificar se o movimento nas Bolsas era mesmo uma bolha especulativa, pois
"bolhas só podem ser caracterizadas depois que estouram".
A afirmação é paradoxal. Se ele mesmo criticava a valorização excessiva
antes do estouro, como pode afirmar agora que não havia meios de
caracterizar o ciclo de valorização de papéis como excessivo e indesejável?
O desmonte dos mercados de capitais nos EUA começou há dois anos. O pico da
Nasdaq (Bolsa que concentra as ações de empresas de alta tecnologia)
aconteceu em março de 2000. Desde então, as perdas acumuladas pelos
investidores passam de US$ 7 trilhões. A Nasdaq perdeu 74% do seu valor
entre março de 2000 e a última quinta-feira. Colapso é a palavra mais
adequada para resumir essa monumental queima de riqueza.
Além da afirmação em que se contradiz, Greenspan argumenta que, para fazer
efeito contra a euforia, o Fed teria de elevar os juros a ponto de provocar
uma profunda recessão. Elevações graduais seriam inócuas, a julgar por
episódios em que as Bolsas, após breves quedas motivadas por elevações de
juros, voltavam à espiral especulativa.
Há nesse caso outra contradição, pois Greenspan nos últimos meses adotou a
redução gradual das taxas de juros e, mais recentemente, deu sinais de que
poderia promover novos cortes para estimular a economia.
Ora, se o gradualismo não funciona contra a euforia altista, qual a garantia
de que a política gradual de redução dos juros possa reanimar a economia?
A conclusão é dramática: o discurso do presidente do mais importante banco
central do mundo perdeu o sentido, não tem lógica. Há pelo menos duas
explicações para esse impasse.
Uma é aceitar que Greenspan realmente perdeu a capacidade de emitir juízos
sobre a economia. A outra é acreditar que não se trata de uma limitação
pessoal, mas da constatação de que manipulações das taxas de juros são
insuficientes em momentos de crise estrutural.
Adotada essa perspectiva de longo prazo, em que a unidade de medida do tempo
são ciclos de 50 a 60 anos, a economia mundial estaria chegando ao fim de um
longo ciclo cujo período de expansão rápida teve início após a Segunda
Guerra.
A taxa de crescimento cai globalmente desde os anos 70. A economia mundial
perdeu dinamismo, mas os petrodólares (fundos acumulados por países
exportadores de petróleo) incharam os circuitos financeiros internacionais,
abrindo espaço para operações especulativas sem precedentes nos mercados.
Os sintomas desse descompasso entre mundo real e mundo financeiro surgiram
em lugares diferentes, um após o outro. Os principais episódios de forte
dinamismo nos mercados financeiros, a começar pela bolha japonesa,
terminaram em crises cambiais ou financeiras.
Todos os mecanismos anticíclicos ou de regulação global falharam, da
coordenação entre políticas econômicas à atuação de organismos multilaterais
(como FMI e Banco Mundial). Nada nem ninguém parece capaz de pôr um limite a
essa irreversível desvalorização de capitais.
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