[R-P] Una reflexión sobre los evangélicos brasileños

Julio Fernández Baraibar julfb en ALTERNATIVAGRATIS.COM.AR
Sab Oct 26 23:09:43 MDT 2002


Las iglesias evangélicas se han convertido en uno de los temas centrales
de la campaña electoral en el Brasil. Como sé que la mayoría de los
compañeros miembros de la lista -entre los que me cuento en primer
término- conoce muy poco acerca de este fenómeno religioso social, envío
este artículo que ilumina sobre el tema.
Julio Fernández Baraibar
julfb en sinectis.com.ar

Para onde vai o voto evangélico?
Flávio Pinheiro

É tanta adulação, que parece que os evangélicos vão decidir o segundo
turno. De fato, eles despejaram um caminhão de votos na candidatura
Anthony Garotinho, inflando seu esquerdismo de ocasião, e elegeram 60
deputados federais, 12 a mais do que em 1998. Peso político, sem dúvida,
eles têm. Mas qual? Números eloqüentes deixam no ar as seguintes
suposições:

1. O voto dos evangélicos é voto de cabresto, alienado. Não tem
autonomia ideológica ou política. Irá para onde bispos e pastores
ordenarem. Assim, milhões de votos dados a Garotinho podem migrar tanto
para Serra como para Lula;
2. O que se viu nesta eleição foi apenas a ponta do fundamentalismo
evangélico que, cada vez mais forte, pode eleger um presidente da
República em 2006. Quem sabe, Garotinho.

A antropóloga Regina Novaes, professora da UFRJ e pesquisadora do
Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser), que há anos estuda os
evangélicos e seu comportamento político, não acha nada disso. Regina
não é evangélica, sequer professa uma religião e tem inabaláveis
convicções democráticas. Ela já dá alguns sinais de fadiga depois de
enfrentar tantas vezes a correnteza ideológica que trata os evangélicos
como massa homogênea, de insuperável estreiteza moral e política,
piedosamente conservadora, disponível para ser a vanguarda do atraso.
Como os aiatolás iranianos que derrubaram uma ditadura corrupta para
instaurar um governo baseado em tantas interdições religiosas, como a
que condenava à morte os homossexuais.

"Se todas as profecias sobre os evangélicos acontecerem o que temos que
perguntar é: onde falhamos? Não será uma vitória dos evangélicos, mas
uma derrota das instituições democráticas", afirma. Não que ela não
compartilhe o medo de que isso aconteça, mas por tudo o que viu e
estudou este tempo todo acha que é sintoma de pobreza intelectual ser
movida apenas pelo medo.

"Deve-se disperar os cidadãos para a necessidade de se organizarem para
a mudança. Se o PT for para o poder e não fizer isso estará dando um
presente a Garotinho". Regina insiste num ponto: "É preciso dar aos
evangélicos a possibilidade de votar como cidadãos e não como
evangélicos". Isso, por exemplo, distingue Benedita da Silva, de
Garotinho. Ela se apresenta antes como petista e depois como evangélica.
Na verdade, Garotinho conseguiu uma proeza inédita, usando a identidade
evangélica, que levanta desconfianças, mas conseguindo votos fora dela.
No alarme que soou com o crescimento dos evangélicos, Regina enxerga uma
maximização que não corresponde aos números. Os evangélicos esperaram
com ansiedade o resultado do Censo 2000 e se decepcionaram. Estavam
convictos de que 30% dos brasileiros já tinham aderido às suas
confissões. Eram apenas 15,4%, menos que a porcentagem de votos válidos
obtida por Garotinho. Crescimento talvez maior tiveram os sem-religião
que chegaram a 7,3%. E a hegemonia católica ainda é flagrante: 73,8%.

Clientelismo religioso

Há clareza, mas não simplicidade, no que Regina Novaes diz. É complicado
na complexa sociedade brasileira entender toda a complexidade do mundo
dos evangélicos. Um mundo novo, da alvorada do século XX quando dois
suecos, vindos dos Estados Unidos, fundaram a primeira Assembléia de
Deus, até hoje majoritária, apesar de todo o notável avanço da Igreja
Universal do Reino de Deus do bispo Edir Macedo.

Há sim interseções entre o comportamento político dos evangélicos e o
clientelismo mais pedestre. Do voto de cabresto à porosidade para
pregações populistas. Portanto, em certo sentido, eles são uma linha de
continuidade do atraso político que o Brasil ainda carrega nas veias.
"Mas não são apenas isso", argumenta Regina. Há evangélicos em todos os
partidos, indistintamente. E isso não é casual. Há forte concorrência
entre as diferentes confissões. "Eles pertencem a uma árvore com muitos
galhos. É isso que impede que sejam sempre conservadores, reacionários.
Na Bahia há um grupo rastafári, que fuma maconha, que fundou uma igreja
evangélica", diz.

Mas se o Brasil está aprendendo com a democracia, Regina está convencida
que os evangélicos também estão. Cita exemplos. Na eleição de 1989, o
jornal da Igreja Universal pôs na primeira página um Lula caracterizado
de demônio. Hoje, engajada basicamente no PL, a Universal está
formalmente coligada com a candidatura Lula. Novos tempos.

Mas é voto de cabresto só que com sinal novo? Não de todo, argumenta
Regina. "É diferente do voto consciente, que se deseja, mas não é o
velho voto de cabresto". O voto de cabresto é filho do coronelismo de
chefes locais donos de terras. O voto era a contrapartida dada em troca
de um lugar para viver nas terras dos coronéis. Era um Brasil
essencialmente rural, daí os nomes curral eleitoral, voto de cabresto. O
populismo urbano, lembra Regina, também era ligado ao local de moradia.
Os candidatos da bica d'água nas favelas eram vistos como aliados contra
remoções. Supostamente garantiam o direito do favelado morar ali.

O clientelismo religioso é visto como o pior de todos. O que opera uma
lavagem cerebral da consciência. Regina acha exagerado. "O voto de
cabresto rural era pior. Quem saísse da terra dada pelo coronel não
sobrevivia". Ela diz também que a influência atribuída aos bispos e
pastores não bate com a realidade. "Na Igreja Católica o padre tem o
monopólio dos bens de salvação, é o representante de uma hierarquia
sacramental. No mundo evangélico o pastor não tem essa importância".

Regina diz que conhece muitos evangélicos com espírito crítico aguçado.
Foi o conhecimento de três deles, altivos, participantes, que a
desviaram na década de 70 de um estudo sobre plantações de cana-de-
açúcar no Nordeste para o perigoso terreno da religião. Ela pergunta: o
clientelismo dos evangélicos será pior do que os outros clientelismos
que ainda infestam a política brasileira? Como este povo votaria se não
houvesse uma mediação religiosa? Votaria melhor?

Divina alienação

Os evangélicos, é lugar-comum, importam-se mais com a vida depois da
morte do que com vida antes dela. Esta é a inapelável raiz de seu
conservadorismo. Defendem o "status quo" como uma confortável fatalidade
da vida terrena. "A Igreja Universal só cresceu tanto porque está ligada
no aqui e agora", afirma Regina. Trafega na contramão do lema de forte
teor católico de que os últimos serão os primeiros. "Eles têm um vínculo
com a vida real maior do que qualquer outra religião", diz. "Quem
consegue um salário melhor é porque está abençoado por Deus. Quem fica
desempregado sabe que Deus está a seu lado e diz vou vencer". Mais do
que religião, á auto-ajuda. "Há pregações iguaizinhas a trechos de
livros do Lair Ribeiro".

Alienação portanto não é como era. O populismo, suspeita Regina, também
não. Achar que o populismo dos candidatos evangélicos é o mesmo do
praticado no passado por outras correntes é optar por um veredicto
unilateral. E as descontinuidades, quais são? Por que, no país manchado
pelo desemprego, com cidades inchadas, carentes de serviços sociais,
explodindo de violências, os evangélicos votaram assim?

A verdade é que só os pentecostais chegam a grotões inatingíveis para o
estado e para outras igrejas. "Para populações onde não há relações
estáveis com o mundo do trabalho, os evangélicos são os interlocutores
de um mundo que responde a desordem social com a ordem da religião", diz
Regina. As distinções agora são mais difíceis. Como separar populismo de
políticas sociais compensatórias? O cheque-cidadão de Rosinha é parente
da bolsa-escola.

De anódinos a combatentes

Regina não nega traços conservadores nos evangélicos. No combate ao
aborto, na proibição do fumo e da bebida. Na aborrecidíssima identidade
totalizante que por tudo e para tudo invoca citações da Bíblia, mas, daí
a falar em fundamentalismo, ela acha que é ir longe demais. "No
fundamentalismo a política é uma expressão da religião, apontando para
uma concepção de sociedade". Qual a concepção de sociedade dos
evangélicos? Não existe uma só, mas muitas. Eles estão no PL, no PSDB,
em 23 comitês formados pelo PT, em quase todos os partidos.
"Isso não quer dizer que não tenham interesses comuns e próprios".
Regina lembra que a bancada evangélica nasceu na Constituinte de 1988.
Defendia unida a liberdade religiosa e o direito de ser reconhecida pelo
Estado, como a Igreja Católica já era, nas suas obras filantrópicas.
Os evangélicos são galhos diferentes de uma mesma árvore ainda tenra,
nascida no início do século passado. O Islã tem raízes históricas muito
mais profundas. Mais do que isso. As igrejas evangélicas são mutantes.
"Quem diria há 20 anos atrás que a Universal seria, como é hoje, a maior
propagandista da vasectomia masculina?"

Nos anos 60, os evangélicos eram em geral vistos como politicamente
anódinos. Só lhes interessava a religião. Já não era verdade. Regina
encontrou alguns enfiados até a medula nas lutas das Ligas Camponesas
comandadas por Francisco Julião no Nordeste. Agora eles são vistos como
perigosos, pela possibilidade de se articularem politicamente em favor
de um projeto nacional que ninguém sabe muito bem qual pode ser.
O medo, insiste Regina, é desproporcional ao perigo. "A Igreja católica
está ativa, viva e se modificando. Não é à toa que o Serra foi procurar
o Padre Marcello Rossi no domingo anterior a eleição". O que Regina acha
é que a política precisa perceber as especificidades dos evangélicos. "A
grande política é uma quimera. Já se alimentou de várias causas como
feminismo, a ecologia". Terá chegado a vez dos evangélicos? Existirá uma
bem tipificada causa religiosa?

O naufrágio do socialismo real embaralhou fronteiras entre a direita e a
esquerda. Digamos que seja verdadeira a definição de que a esquerda tem
causas e a direita interesses. A desagradável sensação que fica depois
do primeiro turno das eleições é que os evangélicos moveram-se no rastro
de interesses e não de causas.

Regina Novaes não briga com a linha demarcatória mas, mesmo com o risco
de queimar a língua, discorda do uso que dela se possa fazer, empurrando
para um lado só o rebanho evangélico.









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