[R-P] Comentários sobre o desemprego crescente

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Jue Oct 24 04:51:00 MDT 2002


(Jornal do Brasil - 24.10.2002)
Por Isabel Clemente, Mila Poli e Fernanda Zambrotti


Três dados combinados indicam o tamanho da crise do mercado de trabalho
nas seis principais regiões metropolitanas do país. A taxa de desemprego
atingiu, no mês passado, o maior patamar para setembro, desde 1998: 7,5%
da força de trabalho. A renda média do trabalhador está em queda há 20
meses consecutivos. E o tempo que um desempregado geralmente leva para
se recolocar passou de cinco para seis meses. As informações foram
divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) e mostram ainda que São Paulo despontou com a pior taxa de
desemprego em 20 anos: 9,3%. Os setores que mais demitiram, entre
setembro do ano passado e o deste ano, foram comércio e indústria.
Segundo especialistas, preocupante é o fato de não ter havido oferta de
vagas de um mês para o outro, apesar de mais pessoas terem saído à
procura de emprego (+3%).

As regiões metropolitanas refletem com mais intensidade a crise do
mercado de trabalho, demonstrada na pesquisa do IBGE. E as mulheres
foram as grandes perdedoras. De um mês para outro, só aumentou a taxa de
desemprego feminino (de 8% para 8,5%). A dos homens permaneceu estável
em 6,8%, chegando à média de 7,5% (em agosto, era 7,3%).

- O epicentro da crise é o desemprego nas regiões metropolitanas. O
desemprego recorde em São Paulo é um pouco simbólico e muito sério
também. Pelo menos a crise do câmbio, apesar de toda a instabilidade,
tem uma grande vantagem, que é lançar a semente para a prosperidade por
estimular as exportações - diz o economista Marcelo Neri, especialista
em indicadores sociais da Fundação Getúlio Vargas.

Neri alerta, no entanto, que, com um crescimento de 1%, em média, da
economia, como previsto para este ano, o país não gera vagas suficientes
para absorver o contingente que todo ano chega ao mercado.

O Rio continua com a taxa de desemprego mais baixa (5,5%) das seis
regiões pesquisadas, mas também exibe um triste recorde: é o índice mais
alto para um mês de setembro da era do Plano Real. Tanto no Rio como em
São Paulo, foram basicamente as mulheres que mais pressionaram a taxa de
desemprego entre agosto e setembro, porque o índice medido entre os
homens não saiu do lugar.

No Rio, o setor de serviços responde pela maior parte da ocupação (59%),
explicando também a forte presença da informalidade que ameniza a taxa
de desemprego na região. Há também quem veja algum conforto nos dados
revelados ontem pelo IBGE.

- Nem tudo é má notícia, porque se for comparar setembro do ano passado
com setembro deste ano, verá que houve um aumento de 2,2% na ocupação. É
mais do que o crescimento demográfico. Cerca de 400 mil vagas foram
geradas. Essa parada agora de um mês para outro é que preocupa porque,
em tese, deveria estar havendo expansão na ocupação - diz Lauro Ramos,
especialista em mercado de trabalho do Instituto de Pesquisa Econômica
Aplicada (Ipea).

Entre agosto e setembro, a ocupação só subiu em três regiões: Salvador
(1,7%), Porto Alegre (0,7%) e Recife (0,4%). Rio, São Paulo e Belo
Horizonte tiveram queda. Na comparação entre setembro deste ano com o
mesmo mês do ano passado, os contrastes se sobressaem.

A força de trabalho, ou seja, as pessoas em idade ativa interessadas em
trabalhar ou empregadas, cresceu (3,8%), por causa do aumento da
ocupação (os 2,2% citados por Lauro Ramos) e do número de pessoas
procurando vaga (28,6%). O IBGE sai em campo verificando quem, na semana
anterior de referência à pesquisa, estava trabalhando ou em busca de
emprego. Os desempregados que, por algum motivo, desistiram da
empreitada nesses dias não entram nas estatísticas.

Nos nove primeiros meses do ano, a taxa média de desemprego acumulada
foi de 7,3%, bem acima da registrada no mesmo período do ano passado
(6,2%).

Outro sinal da deterioração do mercado de trabalho do ano passado para
cá é o tempo médio que um desempregado geralmente leva para voltar a
achar trabalho . O IBGE informa que o prazo, entre setembro de 2001 e
setembro último, dilatou-se em mais de um mês. Se antes o tempo médio
era de 20 semanas (ou quase cinco meses), agora uma pessoa pode passar
até seis meses (ou 24,4 semanas) atrás de uma vaga.

-----------------

É como a Grande Depressão de 1930 - Pochmann diz que crise vai trazer
lições

Por Sônia Araripe - editora de Economia

A crise do emprego no Brasil é realmente muito grave, como um paciente
com febre altíssima, avalia o economista Márcio Pochmann, professor da
Unicamp e secretário de Trabalho da prefeitura de São Paulo no governo
petista de Marta Suplicy. O problema, adverte o especialista na área de
trabalho, é que não é fácil diagnosticar exatamente quais são as causas
da doença.

- Apenas por esses números do IBGE seria inconseqüente afirmar que há
recessão. Mas há outros indicadores ajudando no diagnóstico de que
vivemos uma crise histórica. Como se fosse a Grande Depressão americana
dos anos 30. E não será nada fácil para o novo governo enfrentar esse
cenário.

Poucos economistas brasileiros conhecem tão bem a cara do emprego - e
principalmente do desemprego - como o paulista Pochmann. Que,
curiosamente, é um nome cotado na bolsa de apostas para um eventual
futuro governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

O professor desconversa, mas frisa que o novo presidente irá, sem
dúvida, precisar enfrentar não só um desemprego estrutural como também
conjuntural. A elevação dos juros básicos da economia, hoje em 21% ao
ano, e o racionamento de energia são apenas alguns dos fatores que, na
opinião de Pochmann, agravaram a crise do emprego.

Isso não significa que o quadro é irremediavelmente pessimista. O
professor vê uma correlação do cenário atual com a crise aguda pela qual
a economia americana passou nos anos 30, atingindo de roldão o resto do
mundo.

- Roosevelt tirou lições importantes da depressão econômica. Naquela
época, havia cerca de 13 milhões de desempregados, ou 25% da população
economicamente ativa dos EUA. Roosevelt colocou para baixo a expectativa
que não poderia intervir na economia. Ele fez frentes de trabalho,
programa de seguro-desemprego e redução da carga horária semanal para 40
horas por semana.

O que mais chamou a atenção do especialista nas estatísticas do IBGE é
que em pleno segundo semestre, quando as encomendas de Natal costumam
dar gás à economia, os números foram tão negativos. Com a experiência de
quem acompanha há anos esses números, Pochmann frisa que não será
possível reduzir o desemprego da noite para o dia.

- O crescimento da economia é essencial para que novas vagas sejam
criadas. Não há mágica.

Recentemente, o professor da Unicamp fez uma pesquisa para provar que os
dados do emprego têm relação com a violência vivida principalmente nas
grandes cidades. Ele frisa que ninguém deve imaginar uma solução para a
crise social se não houver investimentos maciços nessa área.

- Não adianta só combater a face mais visível da violência. É claro que
essa é a mais urgente. Mas apenas políticas sociais claras conseguirão
resolver essa questão no médio a longo prazo.







Más información sobre la lista de distribución Reconquista-Popular