[R-P] Celso com Lula

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Mie Oct 23 14:27:30 MDT 2002


Chegada emocionante

José Antônio Aleixo da Silva <jaaleixo en uol.com.br>

A platéia de pé, sob aplausos intensos, abriu um corredor emocionado e
reverente para que o economista pudesse chegar até ao palco onde estava
Lula. Aos 82 anos, doente, mas convicto de que o Brasil pode - precisa -
retomar sua construção interrompida, Celso Furtado tornou-se uma referência
da luta pelo desenvolvimento nacional, que ele resume numa frase síntese:
"Desenvolvimento é ter controle sobre o próprio destino".

Lentamente, apoiado na bengala, o economista atravessou o salão ladeado pela
escritora Rosa Freire D'Aguiar e pelo amigo e jurista Evandro Lins e Silva.
Havia lágrimas nos olhos de vários artistas e intelectuais a sua passagem.
Era incontrolável. Seja pelo personagem símbolo de um país que o Brasil
poderia ser, mas que ainda não é; seja pela cumplicidade de várias gerações
ali reunidas em torno de um velho sonho: fazer do Brasil algo mais que um
mercado, um abrigo de identidade, um espaço de reconciliação entre
desenvolvimento e humanismo.

Paraibano de Pombal, Furtado agradecia ao auditório com seu olhar altivo e
sertanejo. Os aplausos não cessavam. Havia emoção até nas garrafas de água
gelada que os garçons deixaram de servir, hipnotizados eles também, pela
cena histórica a que todos assistiam e da qual tinham o privilégio de
participarem.

Momento memorável! É cedo para balanços, mas talvez tenha sido o momento
mais bonito das eleições presidenciais de 2002.O mais emblemático. O mais
intenso. O instante em que se desvelou a potencial grandeza deste pleito  (o
que está em jogo nele).

Fugaz, mas suficiente para a utopia ressurgir, roçar a pele de cada um e
suscitar o arrepio que antecede as grandes travessias. Talvez ali tenha
ficado mais claro, para cada um, o sentido de sua presença no evento daquela
tarde. O mesmo que fez Celso Furtado empunhar a bengala e deslocar-se até lá
para declarar apoio público a um candidato presidencial pela primeira vez na
vida.

Em resumo, a chance - real - de mudar o país.

Lula soube captar a densidade desse sentimento e seu papel catalisador no
processo - como bem adiantou logo de início Antonio Cândido. Depois de
abraçar Celso Furtado, ele reencontrou a veia do discurso e encerrou a tarde
com chave de ouro:

"Espero, se eleito, honrar aquilo que foi o trabalho e o sonho de pessoas
como Celso Furtado, que carregaram isso durante a vida inteira. Nós não
temos o direito de errar. Quero dizer que com o apoio de vocês, jamais serei
um governante solitário. Com esse apoio sou o mais importante PhD deste
país: vocês são a cultura e o diploma que eu não tive".

- Ah, que coisa mais linda, meu Deus!, a moça ao lado da cantora Marina Lima
debulhava-se em aplausos, imitada logo a seguir pelo auditório todo, de pé,
olhos cintilantes e marejados, a provar que estrelas de verdade não apenas
brilham à tarde, como também sonham e choram de emoção em tardes que
prenunciam um novo amanhã








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