[R-P] Terrorismo

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Mar Oct 22 20:01:44 MDT 2002


A atriz e o texto

Por Mauro Santayana - 17/10/2002


Há atores que pensam - Shakespeare foi um deles - e atores que apenas
recitam. Não se sabe bem em que categoria pode incluir-se a atriz Regina
Duarte, na curta intervenção em favor da candidatura José Serra. Como em
quase todas as manifestações do cantar tucano, a fala de dona Regina
trouxe, no âmago, uma contradição - aquilo a que os gregos chamavam
aporia. Ela disse que o Lula não é o mesmo, e que ela agora tem medo
dele.

Ora, o candidato do PT é acusado, pelos setores mais à esquerda, de
haver diluído o seu ânimo combatente, enfim, de ter enveredado pelo
caminho do compromisso, o caminho do centro. Se Lula mudou para a
moderação, e se dona Regina prega a moderação, por que, então, o medo ao
candidato do PT?

Esse paradoxo tucano (e o tucano, com seu bico é, em si, um paradoxo)
já se manifestara em uma declaração de Fernando Henrique, quando o
Presidente se vangloriava de ter contribuído para a aposentadoria de
políticos vulgares e demagogos, como Maluf e Newton Cardoso, ao mesmo
tempo que estranhava terem esses mesmos políticos manifestado seu apoio
a Lula, no segundo turno.

Segundo o Presidente, isso era uma posição incoerente. Pergunta-se,
então: se estivessem apoiando Serra, estariam sendo coerentes? Por essas
e por outras é que se recomenda ao homem público manter sempre o freio
na língua.

Retirada a exigência lógica do discurso, fica a mensagem do medo. Não
há dúvida de que a atriz leu o texto que lhe deram. Restam, no entanto,
algumas dúvidas, que seria bom ver esclarecidas. Dúvida primeira: ela
estava ou não de acordo com o que lia? Dúvida segunda: ela participou do
programa como militante ou como profissional? Os atores, como sabemos,
são como os "cavalos" dos terreiros de umbanda: tanto podem encarnar os
espíritos da luz como os espíritos das trevas.

O ator é tanto melhor quanto mais se aliena, isto é, quanto mais
abandona o seu próprio ser para se tornar o personagem criado pelo
autor. Regina Duarte é uma excepcional atriz - e isso não se encontra em
discussão. O que se encontra em discussão é a intenção política de seu
ato. As pessoas ingênuas sempre acreditam que no ator há o personagem,
em lugar de entender que no personagem está sempre o ator.

O autor destas notas se lembra de uma viagem de campanha de Mário Covas
ao interior de Minas, mais precisamente a São João del Rei, em que o
candidato a presidente da República estava acompanhado exatamente de
Regina Duarte e do ator Lima Duarte (que, é bom repetir, não são
parentes, nem de longe). Em um bar de beira de estrada, Lima Duarte - em
companhia deste repórter - pediu uma popularíssima cachaça com ervas,
enquanto um velho, que também se servia da sua, comentava, ao lado, e
fascinado: "esse Sassá Mutemba é homem mesmo. Tá bebendo essa cachaça aí
e, ainda agorinha, tava dirigindo um trator na televisão". Lima Duarte
fazia, na época, um comercial de tratores.

Os ídolos populares são bons carreadores de votos, e continuarão a ser,
enquanto houver mundo e houver eleições. Nada contra a presença de dona
Regina nos programas de que quiser participar, para isso receba ou não
receba seu cachê. Não se trata do ato, mas do conteúdo; não da
representação em si, mas do texto. Trata-se, sim, de terrorismo.
Trata-se, sim, da repetição de uma mesma farsa, já encenada e, então,
vitoriosa, nas eleições de 98.

O medo de que venha o pior, para continuar no péssimo. Mas o feitiço,
desta vez, está pegando o feiticeiro. Quanto mais batem na candidatura
de Lula, mais ela cresce. Se a coisa continuar nesse ritmo, Serra corre
o risco de obter, no segundo turno, menos votos dos que os obtidos no
primeiro.







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