[R-P] Lula
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Lun Oct 21 16:44:17 MDT 2002
EXCLUSIVO: "Capacidade de negociação distingue Lula de Serra", diz Belluzzo
07/10 . 10:09
Por Claudio Cerri, da campanha Lula Presidente
"Só um desastre ferroviário de proporções cinematográficas tiraria a vitória
de Lula no segundo turno das eleições", brinca o economista Luiz Gonzaga
Belluzzo. Professor da Unicamp, ex-secretário da Fazenda do governo Sarney,
Belluzzo usa a imagem ferroviária para reforçar uma projeção matemática
conservadora: "Com três pontos do Garotinho e três de Ciro, sem perder os
votos que já tem, Lula está eleito", diz o economista.
Essa certeza move-o a descortinar o cenário pós-eleitoral marcado por
ingredientes inflamáveis como altas taxas de desemprego, escassez de
capitais e volatilidade internacional. O conjunto, segundo ele, recomenda
duas terapias insubstituíveis: liderança política interna e doses cavalares
de articulação internacional.
"A diferença principal entre as candidaturas em confronto neste segundo
turno emerge justamente deste cenário. Lula é um líder político em condições
de coordenar seu programa de governo com setores sociais amplos para
equacionar a longo prazo os impasses brasileiros. É também o líder capaz de
abrir espaços e ser ouvido nos fóruns internacionais. A outra candidatura é
egressa do PSDB que, como se sabe, e o deputado Delfim Netto já disse, é o
partido que inventou a social-democracia sem classe operária. Portanto sua
capacidade de articulação social é próxima a zero. E a moeda política mais
valiosa do país neste momento é justamente essa: capacidade de negociação",
sublinha o economista.
Esse quadro mais o caráter plebiscitário assumido pelas eleições, atributo
destacado por Luiz Inácio Lula da Silva na sua primeira entrevista após o
primeiro turno, nesta segunda-feira - "mais de 76% votaram contra a
dependência econômica a que o Brasil está submetido", declarou o candidato -
têm atraído as atenções da imprensa internacional sobre o Brasil e seu líder
operário.
"Tenho tido contato com muitos jornalistas estrangeiros", conta Belluzzo.
"Eles estão impressionadíssimos com a desenvoltura política de Lula e com a
estrutura do PT. Lá fora a percepção histórica do que está acontecendo no
Brasil é muito superior à capacidade de avaliação da nossa imprensa", define
o professor da Unicamp. A seguir trechos da entrevista de Luiz Gonzaga
Belluzzo ao site Lula Presidente:
A primeira entrevista coletiva de Lula, segunda feira, em São Paulo,
praticamente lotou um auditório para 300 pessoas. Boa parte eram
correspondentes internacionais. Por que o mundo olha com tanta atenção o
candidato do PT?
Conversei com uma dezena de correspondentes estrangeiros nos últimos dias.
Gente que veio cobrir as eleições brasileiras. Eles estão muito
impressionados com a desenvoltura de Lula. E com a estrutura do seu partido.
O mundo está descobrindo que existe no país uma força política de esquerda
democrática, competente e responsável. O Brasil está prestes a ter um
governo verdadeiramente democrático, num país periférico. É uma experiência
inédita. Um operário que chega à Presidência da República num país
periférico, dentro das normas democráticas, quer dizer, uma transgressão
dentro das regras do jogo, sem dúvida, merece atenção.
O senhor acredita que Lula vai vencer no segundo turno?
Não vejo como possa perder. Só se ocorrer um desastre ferroviário de
proporções cinematográficas. Matematicamente, o fato é que, se Lula
conseguir três pontos dos votos de Garotinho e três de Ciro, a eleição está
ganha. É preciso trabalhar, portanto, com um olho nas urnas e outro na
transição. O PT precisa se mover inclusive no exterior, para ganhar espaço e
expor seus pontos de vista e seu programa.
A crise praticamente impõe aos candidatos medidas semelhantes em algumas
áreas. Por que então Lula?
Porque não basta ter alguma lucidez sobre a crise desse modelo ou sobre a
necessidade de sua mudança. O decisivo é ter capacidade de coordenação
política. Em outras palavras: a crise cobra uma liderança representativa,
capaz de fazer frente aos impasses, que são muitos. O que precisa ser
corrigido é mais ou menos sabido. Agora, conseguir uma trégua de setores
sociais que estão há oito anos na fila de espera são outros quinhentos. Quem
tem credibilidade para isso? O futuro presidente terá que negociar
contrapartidas futuras em troca de compromissos imediatos envolvendo todos
os setores sociais. Quem no espectro político brasileiro pode fazer isso? O
Serra? O PSDB? Como bem disse o Delfim Netto, o PSDB inventou a
social-democracia sem classe operária. Quer dizer, não dá! O Brasil precisa
mais que nunca da capacidade de negociação. Isso requer um líder, e esse
sujeito no Brasil é Lula.
O futuro governo terá dinheiro para lastrear esse pacto com políticas
sociais?
De imediato você pode ter condições de reforçar algumas políticas
compensatórias. É preciso olhar urgentemente a Lei Orçamentária, mas creio
que tem jogo. Agora, não pode deixar cair a carga tributária de jeito
nenhum. E é bom lembrar que algumas receitas antecipadas neste ano vão
desaparecer, caso dos R$ 7 bilhões dos fundos de previdência, por exemplo.
Nesse cenário, você não pode imaginar que os trabalhadores vão dar um
crédito de confiança a quem está aí há oito anos e não fez nada. Por que
iriam aceitar que lhe enfiassem algo pela goela, outra vez, se nunca tiveram
nada em troca?
Qual seria a contrapartida externa dessa liderança doméstica,
considerando-se que o "front" internacional também é adverso?
Do ponto de vista externo, o PT terá que fazer uma ofensiva para multiplicar
laços com governos e lideranças intermediárias. Nos EUA, por exemplo, é
importante entender a legislação tributária deles. É vital, também, um
encontro de Lula com o Sweeney, da AFL-CIO, a poderosa central sindical
norte-americana. Claro que isso não descarta um encontro com Paul O"Neill e
com Greenspan. Mas nos EUA é importante abranger todo o espectro de
lideranças, inclusive essas intermediárias. Lula goza de credibilidade para
abrir esses espaços. Temos, portanto, credenciais para falar com o mundo de
igual para igual. Acho, por exemplo, que deveríamos discutir também com o
governo Blair a experiência deles de autonomia para o BC. Não se trata de
aprender. Vamos lá expor a nossa visão e ouvir a deles.
Ou seja, ampliar os laços para não ficar apenas na dependência do FMI?
Claro. Deveríamos ainda falar com o Joseph Stiglitz, hoje um dos maiores
críticos do FMI, e mesmo com George Soros. Aquilo que ele disse tempos atrás
foi uma forma de criticar a subordinação da política ao mercado. Mas ele tem
uma proposta concreta interessante para a escassez de créditos hoje no
mundo: a criação de uma linha de redesconto para papéis de países
endividados, especialmente o Brasil.
Como isso ajudaria o Brasil?
Na medida em que o FED ou o Banco Central Europeu começassem a comprar
papéis brasileiros, seus preços subiriam. Os capitais voltariam. No momento,
estamos desfinanciados.
O cenário externo do próximo governo amedronta?
O cenário é ruim, mas não é desastroso. Se os EUA crescerem 2%, com a atual
desvalorização cambial, o Brasil pode crescer mais do que isso fortalecendo
as exportações. Os produtos de nossa pauta de exportações já registraram uma
queda forte das cotações, mas o que está despencando agora são os
informatizados. O horizonte das exportações não é ruim. Nossas contas
fiscais também estão razoáveis.
O problema, mesmo, é a conta de capitais?
Exato. Estamos com saída muito forte de dólares e não está entrando nada.
Isso preocupa. O governo precisa ser criterioso nos desembolsos de moeda
forte nos próximos meses. Não podemos chegar a US$ 5 bilhões de reservas
líquidas, porque é o sinal de alarme. Poderia requerer medidas de proteção.
Nos próximos três meses, até a posse do novo presidente, o governo precisa
ser muito criterioso nos desembolsos. É melhor deixar o câmbio subir e arcar
com um pouco de inflação do que ficar sem reservas para o novo governo.
Em 1987, quando o senhor era secretário da Fazenda, na gestão do ministro
Dilson Funaro, o Brasil centralizou o câmbio e hierarquizou os pagamentos.
Por quê?
Quando chegamos ao governo a seca de dólares era pior do que hoje. Fizemos
sete "Cartas de Intenção" com o FMI. Os dólares que entravam eram
suficientes apenas para pagar juros. Tínhamos apenas US$ 8 bilhões quando
começamos e ficamos com US$ 6 bilhões, depois que houve o congelamento
cambial. Então, o presidente Sarney decidiu: vamos fechar. Centralizamos o
câmbio e os pagamentos. O atual governo não pode permitir que se crie uma
situação dessas. Caso contrário vai entregar o carro ao Lula em janeiro com
os quatro pneus furados.
O colapso das fontes de financiamento e a volatilidade de capitais refletem
um esgotamento do modelo neoliberal?
O neoliberalismo remonta ao descasamento do padrão-ouro, firmado em Bretton
Woods, no pós-guerra. Nos anos 70, houve uma corrida contra o dólar, e o
Tesouro norte-americano desvinculou a moeda do ouro iniciando-se um ciclo de
ajustes via liberação dos mercados financeiros e dos circuitos de capitais.
Mas a minha percepção é de que esse ciclo se esgotou. O problema é que não
existe nada para se pôr no lugar. Estamos vivendo o ciclo de busca. O
poderio norte-americano dificulta bastante essa empreitada. Mas uma vitória
de Lula é um passo importante nessa busca. Daí a enorme repercussão
internacional e o interesse da imprensa estrangeira pelo candidato.
É uma busca complicada.
É um caminho estreito. E é preciso negociar cada passo, cuidadosamente. Por
isso, e aí voltamos ao início da conversa, Lula é o personagem dessa
história. Serra pode até imaginar o que deve ser feito do ponto de vista
macroeconômico, mas quem tem condições políticas de implementar é o Lula.
Caso contrário, você votaria num livro-texto de economia, e alguém iria
transformando suas páginas em ações. A vida não é assim.
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