[R-P] conhecem o L.F. Veríssimo?

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Mie Oct 9 18:32:03 MDT 2002


Luis Fernando Verissimo

Se entendi bem a lógica do momento, a situação do país é tão grave que
seria  temerário entregá-lo a qualquer outra facção que não a responsável
pela  situação ter ficado tão grave. Algo na linha do imperativo doméstico
que a gente ouvia da mãe: quem sujou que limpe. Mas como os que sujaram não
reconhecem que sujaram - pelo contrário, identificam-se como guardiões de
uma normalidade ameaçada pela vitória da oposição - a analogia não vale.
Qual é exatamente o "caos" que viria com a eleição do Lula? Crise
financeira, estagnação econômica, desemprego, um clima social explosivo?

Isso tudo já tem. Essa é a normalidade ameaçada. Até o pior efeito previsto
de uma mudança de modelo, a fuga do capital especulativo, já começou, e o
que o espantou não foi a cara feia do Lula, mas o reconhecimento de que
esse  modelo não se sustenta.  O pânico com a possibilidade de um calote não
vem  do medo da "esquerda", que no poder não seria nem burra nem suicida,
mas  do  tamanho da dívida, e o que tornou a dívida terrível foi a política
de dependência total adotada pelo  atual governo. Muito mais assustador - a
longo prazo, até para os especuladores - do que a perspectiva de uma mudança
deveria ser a perspectiva da continuação deste caminho sem alternativa para
o desastre. Mas tal é o domínio do pensamento econômico hegemônico
sobre a  nossa mente colonizada, que ele consegue até definir conceitos que
a  realidade em volta desmente, como os de "normalidade" e "caos". Essa
guerra  civil permanente no meio da qual a gente vive não é o caos. Ou é um
caos  perfeitamente normal. A seriedade e a sensatez que uma aventura
esquerdista supostamente destruiria são representadas pelos índices de
desenvolvimento  social que elas alcançaram. Escolha qualquer um: saneamento
básico,  habitação, energia. Depois de oito anos de dependência total,
ficamos  dependentes até do vocabulário e dos valores do capital financeiro,
como  caddies miseráveis que adotam os hábitos dos ricos para os quais
carregam o  saco de golfe. A conveniência do mercado especulativo se tornou
o nosso  parâmetro de normalidade, e qualquer alternativa ao seu domínio, o
nosso  parâmetro de terror.

Repasse este e-mail. A sociedade não pode estar torpe,  neste momento
decisivo.

 Luiz Fernando Veríssimo








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