[R-P] Doutrina Bush
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Mar Oct 1 12:34:19 MDT 2002
Marcio Aith
O mundo não sabe como reagir à doutrina Bush
23/09/2002
Na última sexta-feira, o presidente dos EUA, George W. Bush, divulgou um
documento sobre política externa por meio do qual consolida sua doutrina de
ataques preventivos e formaliza a supremacia militar e econômica americana.
O documento _"A Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos"_ afirma
que os EUA não pretendem permitir que sua liderança seja desafiada e agirão
para perpetuar a hegemonia americana.
O documento tem dimensão histórica. Considerando a importância simbólica de
toda ação governamental desse quilate, sua divulgação fica marcada como o
momento em que os EUA, tendo vencido a Guerra-Fria, manifesta sua estratégia
para manter-se líder no mundo_ à força, se necessário.
Desde sexta-feira, tento, inutilmente, caçar a reação de países como China,
Rússia e Brasil a esse documento. Nenhum governo ousa comentá-lo
publicamente. Diplomatas estrangeiros em Washington fazem críticas
reservadas ao texto, mas ninguém as expõem.
O ministro Celso Lafer (Relações Exteriores), que estava na capital
americana na semana passada, fez um esforço enorme para fugir do assunto,
tendo mandado um assessor dizer que não falaria porque não lera as 33
páginas que compõem a estratégia americana.
Acredito haver dois motivos para tanta cautela. O primeiro é tático. Nenhum
país obteria ganhos estratégicos criticando Bush ou contestando, de forma
infantil, a incontestável hegemonia dos EUA.
Mas a inação também decorre do fato de que ninguém sabe como reagir. Existem
dúvidas, entre os países industrializados e emergentes, sobre como situar-se
num mundo unipolar onde o líder faz questão de mostrar quem manda. Na
dúvida, decide-se nada falar.
O México, único país que se apressou em acoplar sua própria política externa
à nova realidade divulgada pelos EUA, hoje arrepende-se. Eu estava no
México, em junho passado, quando, num jantar oferecido a diplomatas
estrangeiros, o chanceler Jorge Castañeda divulgou que os pilares da nova
política externa mexicana passariam-se a basear-se no reconhecimento dos EUA
como potência hegemônica.
Apelidada por Castañeda de "bilateralismo multilateral", a nova política
externa mexicana propõe alianças estratégicas com todos os países, mas
reconhece o fato indiscutível de que o México deve vincular-se
primordialmente aos EUA, por "razões de história, de geografia e interesses
concretos".
Desde junho, os mexicanos vinham oferecendo aos EUA colaboração generosa e
gratuita em todos os campos. Há duas semanas, depois de perceber que nada
obteriam em troca _ ao contrário, tiveram seus interesses contrariados em
vários assuntos_, começaram a colocar bodes na relação do país com os
americanos.
Enquanto os EUA homenageavam as vítimas de 11 de setembro, o presidente
Vicente Fox decidiu retirar o México do TIAR (Tratado Interamericano de
Assistência Recíproca), aquele acordo militar concebido no início da Guerra
Fria como um mecanismo de ação coletiva de autodefesa no hemisfério.
O tratado, invocado pelo Brasil depois dos atentados, prevê que um ataque
contra um dos países signatários seja considerado um ataque a todos os
demais.
É verdade que o México já denunciara o TIAR antes de 11 de setembro por
considerá-lo obsoleto. Portanto, a oposição dos mexicanos a ele não é nova.
No entanto, Fox mudara de idéia depois dos atentados, reconhecendo que
surgira uma nova função para o acordo. Agora, acabrunhado com os EUA, Fox
mudou de idéia novamente.
Segundo um diplomata mexicano com quem conversei, Fox descobriu que os
americanos só dão valor e oferecem ajuda para quem lhes cria dificuldades,
obstáculos e problemas. Já que os EUA declararam sua hegemonia no mundo,
disse ele, que paguem o preço.
John Ikenberry, professor da Universidade de Georgetown, publicou na revista
"Foreign Affairs" um ótimo artigo sobre a nova doutrina americana que
resvala nesse ponto.
Nele, sustenta que os parceiros dos EUA começarão a exigir compensações para
colaborar com a Casa Branca em tarefas como participar da reconstrução de
países destruídos depois de conflitos e fornecer informações de
inteligência.
Segundo Ikenberry, outros governos raciocinarão que, se os EUA querem
exercer sua hegemonia sem consultar a comunidade internacional, cabe à Casa
Branca arcar com o preço dessa hegemonia.
Por exemplo: para concordar com a invasão do Iraque, a Rússia exigiria
exclusividade na exploração de petróleo naquele país. Para prender
terroristas, o Paquistão exigiria ainda mais ajuda do FMI (Fundo Monetário
Internacional).
Nesse mundo onde os EUA mandam e a comunidade internacional passa à condição
de coadjuvante, ninguém colaboraria, todos cobrariam um preço.
É preciso descobrir o que (e "se") cabe ao Brasil dizer nesse contexto. Por
enquanto, como quase todo o resto do mundo, ficamos quietos, esperando que
alguém atire a primeira pedra.
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