[R-P] JOSE LUIS FIORI
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Dom Jun 23 12:07:33 MDT 2002
Amigos da R-P
José Luis Fiori é um crítico permanente da onda neoliberal. Sua produção
intelectual, nos últimos anos, constitui uma das lúcidas críticas ao
consenso de Washington e do governo FHC.
Mário
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Melhor olhar de frente
Só um pacto e uma mobilização nacional que acumulem as forças
necessárias para virar a página neoliberal poderão abrir um novo caminho
para o Brasil.
Por José Luís Fiori - economista e doutor em ciências políticas,
professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
"Na Roma antiga, só votavam os romanos, no capitalismo global moderno,
só votam os americanos, os brasileiros não votam" (George Soros, Folha
de S. Paulo, 8 de junho de 2004)
Faz pouco mais de um mês que Robert Cooper - conselheiro político
internacional de Tony Blair - explicou, por intermédio da imprensa
inglesa e brasileira, o funcionamento do novo imperialismo
anglo-americano, que se globalizou na década de 90, e que ele chamou de
''imperialismo voluntário da economia global'', ensinando ao mesmo tempo
que, nesse novo imperialismo, ''os países que quiserem se beneficiar
devem se abrir e aceitar a interferência das organizações internacionais
e dos estados estrangeiros''. Agora, na última semana, foi George Soros
quem completou a lição, ensinando aos que querem se beneficiar do
''imperialismo voluntário'' que, também, devem abrir mão do direito a
eleições livres, porque ficaram inúteis. Só serão legítimas se derem a
vitória aos candidatos oficiais e que contem com a bênção dos agentes
financeiros nacionais e internacionais.
Com essa entrevista e com a ajuda consciente ou inconsciente de um de
seus ex-funcionários que trabalha transitoriamente no Banco Central,
George Soros já interveio no processo eleitoral brasileiro. Mas isso não
deve impedir que se olhe de frente para o que ele disse, reconhecendo e
discutindo seu grão de verdade, como primeiro passo indispensável de uma
resposta política e econômica eficaz. E o que ele disse foi que, no
mundo das finanças globalizadas e desreguladas, os países que não têm
moeda forte e dependem do investimento externo para a rolagem diária de
suas dívidas privadas e publicas não podem discutir, muito menos
alterar, as políticas impostas pelos credores. No caso brasileiro, a
adoção do modelo liberal gerou nos anos 90 um passivo externo de 400
bilhões de dólares, e agora requer um bilhão de dólares semanais de
financiamento internacional, só para girar as dívidas e sobreviver. Para
simplificar o argumento de Soros, os donos desse bilhão de dólares é que
seriam o verdadeiro colégio eleitoral que elegerá o próximo presidente
brasileiro.
Nada disso, entretanto, é novo ou surpreendente. Basta consultar os
textos e documentos centrais do Banco Mundial, e de vários outros
organismos internacionais, para ver que esse foi um ponto absolutamente
consensual entre os formuladores iniciais do que se chamou, na época, de
Consenso de Washington. Quando seus mentores discutiam a badalada
questão da ''governabilidade'', sempre a condicionaram à manutenção do
que chamavam de enabling economic environment, um ambiente em que as
incertezas fossem radicalmente eliminadas com a supressão da
possibilidade de mudança nas regras e instituições econômicas. Em 1993,
o próprio John Williamson já dizia, explicitamente, no seu artigo A
democracia e o Washington Consensus, que uma condição indispensável à
sobrevivência das novas democracias latino-americanas seria que todos os
atores políticos de cada país estivessem de acordo sobre o que fosse
''cientificamente'' uma ''boa ou correta política econômica'', de
maneira a eliminar a discussão dos temas econômicos dos debates
eleitorais, tornando indiferente qual partido viesse a governar. Edgard
Boeninger, do Banco Mundial, chegou a propor, em 1992, um trabalho
massivo de ''educação econômica'' das elites políticas da América Latina
para que elas aprendessem que só havia um ''único caminho possível'',
capaz de assegurar aos investidores que a democracia não lhes traria
nenhum prejuízo. Essa lição foi repetida tantas vezes, e foi tão bem
aprendida, que todos os governos que adotaram o modelo neoliberal
providenciaram, imediatamente, a mudança de suas constituições e a
aprovação do direito à reeleição. E todos foram devidamente reeleitos,
para evitar o caos.
Mas, se é assim, o que foi que George Soros disse de novo? Nada, ele
não agregou nada de novo ao que já se sabia. Mas, se quisesse, poderia
ter dito muitas coisas novas, porque, além de investidor, ele foi um
observador atento e privilegiado de tudo o que ocorreu na década de 90.
E por isso ele sabe, como todos nós, que sua ''profecia autocumprida''
nunca aconteceu na América Latina. Pelo contrário, as duas únicas
eleições de candidatos de esquerda, no Chile e na Venezuela, não
provocaram nenhum tipo de caos. Em segundo lugar, faltou a Soros dizer
que a eleição e reeleição dos homens de confiança dos investidores e
aplicadores não impediu o caos, basta lembrar que todas as crises
financeiros de 1990, na Argentina; 1994, no México; 1999, no Brasil;
2001, na Argentina e agora em 2002, de novo no Brasil, ocorreram sob o
mando de governos fiéis aos ''interesses do mercado'', e incondicionais
na defesa das políticas recomendadas pelos seus credores. Em terceiro
lugar - e esse foi seu pior esquecimento - Soros não disse que, depois
de dez anos de reeleições e de obediência ao que ele chama de ''modelo
econômico hegemônico'', ficou absolutamente claro que o próprio modelo
não funciona, e nem muito menos atende às necessidades dos
latino-americanos. A década liberal de 90 foi, para a América Latina e
para o Brasil, uma década de crescimento econômico absolutamente
insuficiente e medíocre e de estagnação social, como disse com todas as
letras o sr. Enrique Iglesias - o eterno otimista e presidente do Banco
Interamericano de Desenvolvimento - ao declarar, no final de 2001, que
''a América Latina atravessa um dos períodos mais difíceis de sua
história. Uma situação muito delicada e que pode levar a um desvio,
porque o seu crescimento econômico, na década de 90, foi decepcionante,
com a agravante de que a concentração de renda aumentou, e, hoje, 170
milhões de latino-americanos vivem com menos de U$ 2 por dia''. Além de
tudo isso, depois do fim da ''era Clinton/Camdessus'', com a
desaceleração econômica mundial de 2001 e o rigor da administração Bush,
foi ficando cada vez mais claro uma última lição dos 90. É que, além do
enabling economic environment, existia uma outra condição para o sucesso
do modelo, que nunca havia sido mencionada pelos seus criadores,
gestores e defensores. É que ele só poderia ter chance de sucesso se os
Estados Unidos concedessem a alguns países do continente o estatuto
privilegiado e informal das ''colônias brancas'' ou domínios ingleses do
século XIX, como foi o caso do Canadá, da Austrália e da Nova Zelândia.
A pobre Argentina percebeu e apostou nessa hipótese, sem compreender as
regras e formas do novo ''imperialismo voluntário da economia global''.
Foi rejeitada e afundou na catástrofe, e é por isso que se diz, com
razão, que a política econômica do sr. Malan coloca o Brasil na linha de
tiro da Argentina .
Como se pode ver, quando George Soros falou sobre as eleições
brasileiras esqueceu completamente suas análises e livros publicados
sobre as engrenagens financeiras e com suas críticas à forma de
funcionamento atual do capitalismo global. Raciocinou como um
investidor, ou especulador, pensando nos seus interesses de curto prazo
e deixou de lado o Soros que se propõe ser também um pensador crítico do
sistema capitalista. Se falasse seu lado de crítico do sistema
financeiro internacional, teria que ter analisado e discutido todos os
ensinamentos da década de 90, e, como já fez em outras ocasiões, teria
reconhecido a fragilidade e insustentabilidade, não das eleições, mas do
próprio ''modelo econômico hegemônico'' a que ele se refere sempre com
tanta ironia. Além disso, se seu objetivo fosse construtivo, teria que
ter enfrentado e discutido as disjuntivas de um povo que não quer
repetir a tragédia argentina, mas ao mesmo tempo quer se desfazer do
''modelo de estagnação auto-complacente'' introduzido no Brasil pela
política econômica do governo FHC. Porque esse é o verdadeiro desafio,
de longo prazo, a ser enfrentado pelo próximo governo brasileiro.
Evitar a catástrofe Argentina, desfazendo-se da política do sr. Malan,
entretanto, não é uma tarefa trivial. E aqui não adiantam bravatas, nem
tapar o sol com a peneira, muito menos anúncios apressados e
subservientes de medidas destinadas a ''tranqüilizar o mercado'', como
fez sucessivas vezes, sem nenhum sucesso, o ex-presidente argentino De
la Rúa. Pesa nessa direção a cegueira própria dos economistas que
acreditam na existência de soluções puramente macroeconômicas para
resolver um quebra-cabeça dessa complexidade. Quando, na verdade, só uma
grande mobilização política e econômica e um pacto social amplo
permitirão a desmontagem dessa bomba de tempo e a construção, ainda que
lenta, das bases de uma outra estratégia de desenvolvimento para o
Brasil.
De uma ou outra forma, todos os candidatos presidenciais têm
demonstrado consciência dessa dificuldade, e o desejo de enfrentar o
desafio, mesmo no caso do candidato oficial, que é inteligente o
suficiente para perceber que o ''pito'' de Soros foi dirigido a ele,
muito mais do que a Lula. Mas há que olhar a situação de frente, porque
o que Soros disse é uma descrição do ''desejo dos mercados'', e não um
fato ou comportamento inevitável, mesmo no curto prazo. Nesse sentido, a
antecipação da crise, nestas últimas semanas, teve um papel pedagógico,
porque permitiu relembrar 1998, e enfrentar coletivamente a discussão do
problema, em vez de sair correndo assustado atrás de um novo anjo
salvador. E esse é o verdadeiro motivo da ''convergência programática''
que tem tomado tantas e tantas páginas de jornal, como se fosse uma
grande traição da esquerda, ou das oposições, quando na verdade não foi
a oposição que ficou mais liberal. Pelo contrário, foi o discurso e as
críticas da oposição, nesses oito anos, que ganharam, e ganharam antes
mesmo das eleições. Hoje é comum ler - nos jornais e revistas - artigos
de intelectuais e discursos de políticos que foram governistas e que
repetem agora o que a oposição vinha dizendo há muitos anos. Nesse
sentido, já houve um plebiscito, e o governo perdeu, e é por isso que a
disputa eleitoral parece pouco competitiva. É porque ela já se
transformou num processo complicado e simultâneo de construção de um
pacto social sem precedentes na nossa história. Um pacto e uma
mobilização nacional que acumulem as forças necessárias para ''virar a
página'' neoliberal, e abrir um novo caminho para o Brasil.
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