[R-P] Autoritarismos
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Mie Jun 19 08:15:46 MDT 2002
Autoritarismos
Por Mauro Santayana
Oitenta anos depois da marcha sobre Roma e setenta anos depois da
ascensão de Hitler, torna-se necessária e urgente nova discussão sobre a
liberdade, a democracia e a igualdade, o totalitarismo e o
autoritarismo, principalmente entre nós. Esta é a mais estranha de todas
as campanhas eleitorais, desde que o Brasil iniciou sua trajetória
republicana: todos os candidatos se curvam ao ''pensamento único'' e
autoritário. Nenhum deles está conclamando o povo a defender a soberania
nacional na resistência contra o ''suave imperialismo'', que a nova
direita, com sua máscara sorridente, anuncia ao Mundo. Não há projeto de
nação: quando muito, se referem a algumas intenções, fundadas todas na
estabilidade da moeda, no cumprimento dos contratos, no sopro de vagas
promessas de desenvolvimento.
O discurso é o mesmo, ou quase o mesmo. Não estamos às vésperas de
escolher um líder, mas de aceitar a clonagem do ''duce'' que conhecemos.
É provável que isso se deva a alguns especialistas em propaganda, que,
confessem-no ou não, seguem o mesmo mestre, o insuperável manipulador
Herr Doktor Joseph Goebbels, considerado, pelos seus argutos biógrafos,
um dos mais perigosos líderes nazistas. Como resume o mais acurado dos
analistas da propaganda política, Serge Tchakhotine, em seu livro
clássico, 'Le viol des Foules par la propagande politique', publicado em
1940, os especialistas seguem a regra de ''ne pas laisser le temps de
réfléchir''. Sem propaganda autoritária não há governo autoritário.
Outra coisa é a difusão das idéias que reclamam dos homens a sua
responsabilidade na construção política da sociedade. Quando Tancredo
decidiu sair às ruas do país, na campanha para a sustentação de sua
candidatura, Roberto Duailibi, da DPZ, disse aos seus companheiros que,
daquela vez, não tinham uma conta, mas uma causa. A pregação de Tancredo
era a de que o país queria a liberdade e a paz da justiça, sem as quais
não há estabilidade política nem desenvolvimento. Ele sempre advertia
aos brasileiros que só poderia fazer o que pudessem decidir e fazer
juntos. A isso chamamos democracia.
Os candidatos de hoje se apresentam, uns mais e outros menos, com a
arrogância de titãs, capazes de abrir canais com os próprios braços,
erguer indústrias, plantar e colher safras imensas, segurar a inflação
com os dedos. Essa é a diferença. Homens como Tancredo e Juscelino
diziam ao povo que reconhecesse a própria força e fizesse, ele mesmo, o
seu destino. Um dos postulantes se dirige ao povo representado por
crianças belas e naturalmente ingênuas, que decoram perguntas que não
entendem, e ouvem as lições dogmáticas do mestre-escola. Outro candidato
se apresenta com o discurso de autoridade superior, a dos evangelhos, em
leitura capenga, enquanto agride a liberdade de imprensa, para não
explicar trechos de um passado político curto e nebuloso. Um terceiro
parece, como seu patrono, sempre falar da cátedra. Outro ainda se
submete à ala oportunista de seu partido e cai na armadilha de
incorporar, em seu discurso, a postura dos adversários. Todos, ao
aceitar o autoritarismo externo, apresentam-se como autoritários.
Joseph de Maistre, o grande teórico do autoritarismo, apontava seus
dois fundamentos necessários, um afirmativo, o da fé na figura do papa,
e outro, repressivo, na atividade do carrasco. No meio, deveriam agir os
tiranetes, agentes zelosos de uma ordem mundial dogmática e absoluta,
como os inquisidores espanhóis, que ele admirava.
Substitua-se a fé católica pelo fundamentalismo mercantil, coloque-se
Bush no lugar do papa, troque-se o Vaticano por Washington,
substituam-se os carrascos pela violência do FMI - fonte primeira de
toda a violência das ruas, veja-se nos dirigentes dos países periféricos
os zelosos pró-cônsules da nova ordem mundial - e temos o mundo de
perfeito autoritarismo preconizado por De Maistre.
Substitua-se a fé católica pelo fundamentalismo mercantil, troque-se o
papa por Bush; dê-se a missão de visitadores do Santo Ofício aos
emissários do FMI, transfira-se a missão de carrasco aos pequenos
bandidos que seqüestram, assaltam, torturam e matam, e aos policiais que
os combatem. Para a tarefa de ''gauleiters'' dessa nova ordem mundial,
convoquem-se alguns candidatos a eleições ''democráticas'' nos países
emergentes - e teremos aquele mundo perfeito de Monsieur De Maistre.
A propósito de autoritarismos: se é verdade que o Ministro Jobim fez o
que dirigentes do PMDB governista confidenciaram a jornalistas ter
feito, dele se espera a dignidade de renunciar pelo menos à presidência
do TSE: qualquer decisão que vier a tomar, por mais justa que venha a
ser, estará sempre sob a tacha da suspeição.
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