[R-P] OS BASTIDORES DA CRISE
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Lun Jun 17 09:44:19 MDT 2002
NOS BASTIDORES DO DESASTRE BRASILEIRO
Por Miguel Urbano Rodrigues
Das dezenas de análises e depoimentos sobre a crise brasileira de
que tomei conhecimento dois, pouco divulgados, chamaram
especialmente a minha atenção.
O primeiro foi um artigo do Prof. Jeffrey Sachs, diretor do
Instituto Internacional da Universidade de Harvard. Sachs, que nos
anos 80 ganhou notoriedade internacional ao conceber e elaborar
cirurgias financeiras de choque, primeiro na Bolívia, e depois na
Polônia e na Rússia. É um neoliberal de direita. Na América Latina
ainda lhe chamam ironicamente «o mago das finanças».
Para desgosto do presidente Fernando Henrique Cardoso, este
ultraconservador norte-americano publicou no diário "Folha de
S.Paulo" (05.02.99) um artigo no qual responsabiliza o FMI por ter
feito «descarrilar o comboio do Brasil».
Sachs ilumina parcialmente os bastidores daquilo que foi uma
autêntica conspiração triangular entre o FMI-a Casa Branca-e o
próprio FHC.
As motivações da iniciativa do professor de Harvard são mal
conhecidas. Provavelmente por desavenças pessoais com Michel
Camdessus, o patrão do FMI, tanto ele como Milton Friedman
principiaram há meses a dizer algumas verdades duras sobre o papel
desempenhado por aquela poderosa instituição. Friedman chegou ao
ponto de sugerir que fechassem o Fundo, porque «faz mais mal do que
bem à economia mundial». Sachs não exige tanto. Mas ao afirmar que o
desastre brasileiro «poderia ter sido evitado», adverte que
«enquanto o FMI não for convocado a assumir a responsabilidade pelos
seus erros todo o mundo corre o risco de sofrer choques financeiros
inesperados que prejudicam os padrões de vida dos países em
desenvolvimento e põem em xeque a estabilidade global».
As acusações que formula são extremamente graves. «O FMI - escreveu
na «Folha» em tom coloquial - tem dado atenção excessiva aos
interesses de Wall Street. Se você fosse, digamos, um banco
norte-americano com investimentos no Brasil iria querer que o país
mantivesse a sua taxa de câmbio até receber o retorno sobre o que
investiu (depois disso, quem se importa?). Assim, você pressionaria
o FMI e o Tesouro norte-americano para que exortassem o Brasil, a
Rússia ou qualquer outro indefeso receptor do empréstimo do FMI a
defender a sua moeda. Isso lhe daria tempo para retirar do país o
seu dinheiro, ainda ileso, antes que fossem promovidas quaisquer
mudanças nos valores das moedas».
A transcrição, extensa, é esclarecedora. Explica muita coisa suja.
Quando a crise asiática explodiu em 1997, o governo dos EUA e o FMI
pressionaram o Brasil para que defendesse a cotação do real, de
quase paridade com o dólar, cotação que era totalmente artificial.
As taxas de juro subiram para 50% ao ano para cativar os
investidores.
Estes, porém, lembra Sachs, «não são cegos. Sabiam que a moeda
brasileira estava sobrevalorizada. Mas a uma taxa anual de 50%
apostaram nela e chegaram até a esperar (com razão) que o FMI desse
muito dinheiro ao Brasil para escorar a sua moeda, se fosse
preciso».
O desenvolvimento da situação é conhecido. Em l998 a economia
brasileira lançou-se «numa queda recessiva trágica e previsível». O
déficit elevou-se de 4% do PNB em 97 para 7% em 98.
Que fizeram os investidores estrangeiros e os bancos
norte-americanos? O que seria de esperar: começaram a tirar o seu
dinheiro do país, forçando o Banco Central a vender milhares de
milhões de dólares num esforço inútil para manter a estabilidade do
real.
Sachs afirma que no inicio de 98 o desastre ainda poderia ter sido
evitado se as taxas de juro fossem reduzidas, permitindo que o real
caísse para um nível realista. Mas não foi essa a política de
Fernando Henrique. Fez o que lhe aconselhou o FMI.
Quando a crise russa estourou em agosto de 98, os investidores
começaram a abandonar os mal chamados «mercados emergentes».
Cheirou-lhes a esturro. Foi então que o Brasil estugou o passo rumo
ao abismo. Segundo Sachs, «os EUA e o FMI decidiram emprestar ao
Brasil a proverbial corda com a qual o pais se iria enforcar».
Em Dezembro passado, o FMI resolveu oferecer ao Brasil 41 mil
milhões de dólares em empréstimos a curto prazo. O objetivo foi
utilizar esse dinheiro para defender o real. Traduzido em miúdos,
isso significava que os empréstimos se destinavam ao pagamento dos
investidores estrangeiros. O mecanismo, neste caso, foi indireto. O
Banco Central, reagindo à queda da Bolsa, começou a vender
maciçamente dólares no mercado externo de divisas para defender a
moeda. Resultado: o afundamento do real não foi evitado e agora os
contribuintes brasileiros suportam a fatura para que o Governo
pague os juros relativos aos 41 mil milhões do FMI.
Comentando o pânico de Janeiro no Brasil, Sachs tirou a sua
conclusão: «Não há nada como um fracasso altamente noticiado de uma
política econômica apoiada por Washington para incentivar uma fuga
generalizada da região, provocando falências de bancos, recessão
econômica e sofrimento generalizado, tudo em cascata».
O artigo de Sachs finda com um conselho sensato: os países em
desenvolvimento deveriam «fugir de empréstimos de socorro do FMI
como o diabo da cruz».
A CONFISSÃO DE CASTAÑEDA
O outro texto sobre a crise brasileira que me chamou a atenção foi
um artigo de Jorge Castañeda, divulgado em Havana por «Síntese»,
da Prensa Latina.
Castañeda é um professor da Universidade Autônoma do México,
especializado em Relações Internacionais. Acadêmico prestigiado na
América Latina, defende posições social-democratas e foi ou é amigo
pessoal de Fernando Henrique Cardoso.
Que nos vem dizer esse 'schollar', respeitado nos EUA? Em primeiro
lugar lembra que o caso do Brasil «aparece agora como paradigmático
(...) depois de ter sido proclamado como o exemplo máximo da
complementaridade entre democracia e reforma econômica».
Jorge Castañeda aborda a seguir um tema delicado que fora do Brasil
foi silenciado, com raríssimas excepções.
«Para ninguém constitui segredo - escreve - que a razão de fundo
pela qual o ajuste da divida brasileira foi adiado por mais de seis
meses, foi a reeleição de Fernando Henrique Cardoso. Era
inconcebível uma desvalorização antes das eleições de Outubro
passado, e mesmo antes da segunda volta da votação para deputados,
senadores e governadores».
E acrescenta: «Cardoso absteve-se de abandonar uma paridade
sobreavaliada quando dispunha de grandes reservas, mercados em paz e
uma atmosfera política interna serena - digamos em Julho - para
insistir na sua própria reeleição».
Esperou. Quando a desvalorização se tornou inevitável a hemorragia
financeira já consumira mais do que os 4l mil milhões de dólares
que teve de mendigar depois ao FMI.
Castañeda alerta para uma evidência esquecida : «Apresentava-se como
difícil, senão impossível a reeleição de Cardoso se houvesse
advertido o povo brasileiro daquilo que o esperava no futuro:
inflação, recessão, taxas de juros estratosféricas».
O sociólogo mexicano não especula. Limita-se a recordar o que se
passou. Com a cumplicidade ativa da Casa Branca e do FMI, a manobra
desenvolvida, que garantiu a reeleição de FHC e permitiu aos
investidores acumularem lucros colossais, teve um preço social
devastador.
O papel desempenhado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso
nestas manobras não foi imediatamente conhecido. Mas, pouco a pouco,
o povo brasileiro tomou conhecimento das criminosas cumplicidades
estabelecidas entre Brasília e Washington. Não foi por acaso que
Lula, do Partido dos Trabalhadores-PT, num comício comemorativo da
morte de Tiradentes qualificou publicamente FHC de «vendilhão da
pátria», enquanto o governador de Minas Gerais - o ex-presidente
Itamar Franco - declarava que se oporá pela força, se necessário, à
privatização das hidroeléctricas do seu Estado.
As revelações feitas pelo professor canadiano Michel Chossudovsky,
da Universidade de Otawa, sobre os compromissos secretos assumidos
pelo ministro da Fazenda do Brasil, Pedro Malan, durante um pequeno
almoço, em Washington com George Soros e três outros potentados
financeiros tiveram também ampla repercussão no Brasil. Sabe-se
agora que nesse encontro fechado foi decidida a nomeação para
presidente do Banco Central do Brasil de Fraga Neto, nada menos que
o ex-conselheiro especial de Soros no famoso Fundo especulativo
Quantum.
Numa nota em que caracterizava a situação criada, a Comissão
Política do Partido Comunista do Brasil manifestava-se assim no
inicio de Fevereiro: «A nação, estupefacta e envergonhada, tomou
conhecimento da frequente troca de opiniões entre os presidentes do
Brasil e dos EUA sobre a evolução da crise; foi surpreendida pela
substituição do presidente do Banco Central por um ex-auxiliar
direto do mega-especulador George Soros e assistiu, humilhada, ao
anúncio de um novo rol de medidas econômicas pelo dirigente do FMI
Stanley Fischer. Durante mais de uma semana, representantes da
instituição financeira internacional e do tesouro norte-americano
circularam livremente, sem agenda pré-determinada, no Palácio da
Alvorada, no Ministério da Fazenda, no Banco Central, onde
escarafuncharam papéis, verificaram contas, traçaram planos, deram
ordens. Consumou-se a ameaça para a qual os verdadeiros patriotas
têm há tempos alertado - a de o Brasil se transformar numa
dependência dos EUA». Estes patriotas não exageram. O quadro é esse.
Os grandes responsáveis do desastre a nível internacional não
reconhecem obviamente a sua culpabilidade no que se passou.
O FMI continua a pôr e dispor em Brasília. Mas a crise brasileira
após a russa e a da Ásia Oriental assustou os teólogos da
globalização neoliberal. É sintomático que no Forum de Davos, altar
do capitalismo, o tradicional hino hayeckiano às virtudes do mercado
isento de quaisquer restrições tenha sido substituído por um
discurso diferente. Agora, Schroeder exigiu ali uma regulamentação
dos fluxos financeiros. Calaram-se as vozes que em anos anteriores
enalteceram as políticas milagreiras de Carlos Salinas, de Menem, de
Fernando Henrique, dos Chicago Boys chilenos, de Fujimori. A Coréia
do Sul e a Indonésia deixaram de ser modelos. Agora ate George
Soros, personagem mefistofélica que parece extraída de um romance de
John Le Carré, ousa admoestar a ortodoxia do FMI e, num desabafo,
durante um banquete de amigos, no México, afirma, sorridente, que
o governo mexicano não deveria ter reembolsado durante a crise de 95
os seus credores, mas sim adiado por dois anos o pagamento das
dividas.
Enfim, são imagens do capitalismo selvagem e irracional do fim do
milênio. Este não poderá sobreviver, mas a agonia será demorada.
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