(Fwd) [R-P] Test

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Dom Ene 20 18:12:53 MST 2002


From:           	Mário José  de Lima <mjlima en uol.com.br>
To:             	<reconquista-popular en lists.econ.utah.edu>
Subject:        	[R-P] Test
Date sent:      	Sun, 20 Jan 2002 15:41:32 -0200

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A crise argentina

- Nação versus Poder financeiro -


Maria da Conceição Tavares
Folha de São Paulo, 20/01/2002

        Os governos argentinos e seus economistas levaram as recomendações
das Agências de Washington ao limite ultraliberal, ameaçando destruir a
nação Argentina.
Em 1994, na reversão do ciclo de crescimento argentino depois da
estabilização, a paridade da caixa de conversão já era insustentável do
ponto de vista das reservas bancárias em dólar. Para manter a ficção da
conversibilidade Cavallo tinha mandado converter toda a dívida pública e
privada em dólar, provocando um descasamento da estrutura patrimonial dos
bancos, em pesos e em dólares. No entanto, em 1995 contou com o apoio do FMI e
do Banco Mundial para obter um empréstimo de US$ 10 bilhões, com participação
dos Bancos Centrais da Espanha e Itália e manter a "conversibilidade". Os
apertos periódicos de crédito internacional que acompanharam as sucessivas
crises cambiais da década de 90 levaram à emissão crescente de dívida pública
"dolarizada", com possibilidade de resgate automático que era absorvida pelas
carteiras dos bancos, para dar liquidez e rentabilidade garantidas ao sistema
bancário crescentemente desnacionalizado. Esta foi a regra geral na América
Latina, mesmo depois da crise do México, tornando o continente uma gigantesca
"pátria financeira global". Os argentinos, apenas exageraram e, com o apoio da
tecnocracia internacional, continuaram proclamando firmemente a "estabilidade
automática" da sua caixa de conversão. Segundo eles e a maioria dos "novos
economistas", a paridade cambial e os ajustes fiscais acabariam por restabelecer
a "confiança" (leia-se liquidez em dólar) e a longo prazo o equilíbrio do
balanço de pagamentos e o crescimento. Como é sabido isso não ocorreu, e a
"conversibilidade" foi para o espaço em 2001.
        O Brasil (à luz dos problemas dos vizinhos) não aceitou a caixa de
conversão e o regime cambial nunca foi verdadeiramente fixo. O Bacen fez uma
inversão de sinais, no início do Plano Real, e permitiu uma apreciação cambial
de cerca de 23% que beneficiou sobretudo o patrimônio dos bancos que detinham o
grosso da dívida pública em mercado. Para os mais frágeis foi depois aplicado o
PROER. Na segunda metade da década de 90, os bancos privados brasileiros que
escaparam da desnacionalização (aqueles cujas carteiras estavam entulhadas de
títulos da dívida pública) tiveram lucros astronômicos com os altos juros pagos
pelo Tesouro em todo o período, em particular depois das maxidesvalorizações de
1999 e 2001. Na Argentina, por causa do mecanismo da caixa de conversão, os
sucessivos choques externos tiveram de ser absorvidos com taxas de juros
internas mais baixas que as brasileiras e deterioração acentuada do patrimônio
líquido dos bancos que terminou levando à crise bancária atual. Esta se
materializou com o aperto da liquidez internacional de 2001, quando a maioria
das filiais residentes na Argentina não foi capaz de rolar a sua dívida privada
e começou uma sangrenta fuga de capitais. As próprias matrizes fortemente
alavancadas no mercado financeiro internacional sofreram restrições de crédito
devido ao agravamento da crise mundial e poucas estão dispostas a refinanciar
posições na América Latina com exceção, até agora, do Chile, México e Brasil.
Alguns "analistas financeiros" estimam que o sistema bancário argentino
necessita US$ 15 bilhões para recompor as reservas. A pergunta seria, de quais
bancos? Do banco da Nação e da província de Buenos Aires ou dos bancos
estrangeiros? O FMI (leia-se Tesouro americano) não quer (ou não pode) dar apoio
aos bancos dos países que são sócios minoritários do Fundo e muito menos aos
bancos públicos argentinos. Por isso volta ao velho expediente desmoralizado do
ajuste fiscal e monetário num país completamente quebrado! As filiais dos
grandes bancos americanos sempre puderam socorrer-se do FED, e encaixar o
prejuízo, compensando-o com lucros em outros países. Resta saber quem vai
segurar os prejuízos das filiais espanholas e européias. A pressão do governo
espanhol é escandalosa e desesperada porque eles sabem que a crise bancária e
financeira das filiais argentinas rebate em Madrid e não podem esperar o apoio
em última instância do Banco Central Europeu, que administra as reservas globais
da Comunidade em defesa do Euro. O Brasil já deu sua "contribuição" aos grandes
bancos americanos na desvalorização de Janeiro de 1999 e de novo aos grandes
bancos nacionais em 2001 com a retomada da política de juros altos. Infelizmente
não está em condições de bancar-se a si mesmo em dólar, como o funcionário do
Império fez ver arrogantemente ao representante brasileiro em Washington que
tentou interceder a favor da Argentina. As hienas do mercado internacional já
começam a rondar de novo, com previsões sombrias sobre o Brasil. O Ministro
Malan foi obrigado a reconhecer, esta semana, que podemos ser de novo
"contagiados" pela crise do nosso vizinho em 2002. Na falta de solução para uma
"moratória negociada" da Argentina mandamos o pessoal do nosso Banco Central ir
ajudar a equipe econômica para ensinar-lhes como funciona o câmbio flutuante
(?!). Felizmente também mandamos remédios e alimentos que são mais úteis. Nós,
economistas políticos da oposição que sempre fizemos a crítica ao poder e
"liberdade" concedidos ao capital financeiro, torcemos para que esta luta
desigual termine a favor da nação argentina. Para que o estado argentino possa
recompor-se e retomar alguma soberania, a começar pela política monetária e
bancária. Finalmente desejamos ardentemente que o povo argentino possa recuperar
os seus direitos sem ter de permanecer nas ruas em vigílias permanentes.



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