[R-P] Histórias que não estão nos jornais.

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Mar Ago 13 08:32:52 MDT 2002


Montes Claros, 05 de julho de 2002


Carta Aberta a Montes Claros



A possibilidade de um desfecho sangrento para aplastar a luta dos camponeses
e trabalhadores pobres de Montes Claros, que lutam para desapropriar a
Fazenda Guiné, é cada vez mais real e concreta.


Uma escalada de violência está em curso, cuja proporções nefastas podem
ultrapassar os acontecimentos ainda frescos na memória de todos os
brasileiros, como o assassinato de 19 camponeses em Eldorado de Carajás, no
Pará.


Esta escalada é resultado da completa paralisia do Governo Federal, que
reproduz a estratégia da ditadura do Estado Novo de Getúlio, que inclusive à
época fechou o parlamento. FHC instituiu uma legislação fascista contra a
luta pela terra, ao mesmo tempo que gastou milhões em propagandas na
televisão anunciando as porteiras abertas, milhares de assentamentos por
todo o país, Reforma Agrária, etc., etc., etc.. A "Folha de São Paulo"
desmentiu uma parte destas mentiras, com dados do próprio governo, mostrando
que só 8% das famílias contadas como assentadas pelo governo, poderiam assim
ser chamadas, e um próprio técnico do INCRA MG, sem argumentos diante de uma
ocupação dirigida pelo MST na região de Valadares, se encarregou de
completar a desmoralização e as mentiras da propaganda governamental, como
diz a reportagem do Jornal Hoje em Dia de 24/05/2002: - " o superintendente
substituto do INCRA em Belo Horizonte, Antônio Carlos da Silva, rebate. "
Temos cerca de 40 mil famílias pré-cadastradas para assentamento em todo o
Estado. Com as condições operacionais que temos hoje, precisaríamos de uns
20 anos para conseguir assenta-las. Isso não se faz da noite para o dia.


Longe de ser ataque, agressão ou "esbulho", como pretendem os reacionários,
latifundiários, autoridades judiciárias e boletins de ocorrência policial,
as atuais ocupações se encontram no campo da resistência popular, única
forma do campesinato garantir nem mesmo a posse da terra, mas precisamente
trabalho, uma roça, o pão de cada dia; é saída e resposta contra a crise
econômica que quebrou o país e faliu todos os pequenos municípios do
interior e o campo em geral (no campo tudo é dólar, adubos, venenos,
semente, gasolina etc.)


Só uma vigorosa intervenção política é capaz de impedir o banho de sangue,
fazer a verdade prevalecer sobre a mentira.


Toda a cidade está cansada de saber, e o próprio vereador Afrânio Nogueira
encontrou quando foi ao Acampamento Bandeira Vermelha vários conhecidos e
ex-empregados, que penamos muitos e muitos anos trabalhando a troco de feira
nessa região, conhecemos estas terras como a palma da mão, nelas
envelhecemos, demos sangue, enricamos muita gente, e não temos nada para nós
e nossos filhos.


Todos sabem do desemprego, das demissões, das fábricas fechadas, quando se
esgotam os benefícios da SUDENE.


Todos sabem da miséria da Malhada, da Coberta Suja, das redondezas dos
Santos Reis e da Cidade Industrial.


Todos sabem que a Fazenda Guiné não é produtiva há muito tempo, das casas
abandonadas que tem lá, das disputas entre herdeiros, que lá funciona mal
como área de lazer, que uma grande parte das terras foi tomada ou grilada ou
incorporada após o abandono e expulsão dos confinantes mais fracos, e da
riqueza imperial descomensurada do que se diz proprietário.


E se não é ainda do conhecimento público, o faremos agora: grande parte das
famílias do Acampamento Bandeira Vermelha já plantaram nas terras do
Distrito Industrial, à época do Prefeito Tadeu Leite, e quando desejadas,
obtiveram a promessa do Prefeito Mário Ribeiro de conseguir de toda forma
terras para essas famílias plantarem.


E também que não existiu nenhum assentamento recente de camponeses de Montes
Claros que foi conquistado sem luta, como foi o caso de Mocambo Firme.


Por isso tudo, chamamos a todos à responsabilidade, principalmente as
autoridades municipais, a igreja, às autoridade legislativas, que não se
escondam por detrás de uma inevitável ação policial, como foi o caso recente
do cerco à Prefeitura Municipal pela Tropa de Choque da PM durante
manifestação pacífica dos camponeses pobres no último dia 23 de maio. A
própria PM, anunciando a possibilidade de uma ação violenta, como
reproduzimos no fax enviado ao ITER, alerta para essa possibilidade. O
problema não é de polícia, é de direito, de sobrevivência, de enfrentar a
miséria que não se pode esconder por debaixo do tapete de asfalto, de
verdadeira justiça.


Estamos serenos e conscientes de defender o que é nosso, de lutar contra a
fome e a miséria, contra o desemprego, contra as doenças sem remédios, pelo
nosso presente e futuro de nossos filhos, e o faremos da forma que
necessário, e temos certeza que as forças políticas de nossa cidade também
agirão para impedir que se desate a onda de violência contra o campesinato
em luta, tão revoltado está o povo com a violência cotidiana gerada por um
sistema de governo perverso e concentrador de riquezas.




Acampamento da Bandeira Vermelha

Comitê de Apoio

Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas









Más información sobre la lista de distribución Reconquista-Popular