[R-P] Belluzzo
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Lun Ago 12 07:42:21 MDT 2002
O OUTRO LADO DA MOEDA
Acordo com o FMI salva credores e deixa o País mais perto da recessão
Por Luiz Gonzaga Beluzzo
A estratégia do FMI é sempre a mesma: salvar os credores, custe o que custar
ao devedor. Assim foi na década 80 e agora não será diferente. Em 1985, o
País ficou paralisado pela crise da dívida. As receitas do FMI só agravaram
o cenário.
Anunciado o novo acordo com o FMI, a patuléia ficou à mercê do clima de
euforia e de celebração promovido pela mídia oficialista e pelos economistas
chapa-branca. Os senhores Armínio Fraga e Pedro Malan fizeram questão de
exibir suas reluzentes dentaduras em meio a declarações triunfais sobre "o
reconhecimento da correção da política econômica e a credibilidade do País
junto à comunidade financeira internacional".
É desnecessário dizer que o novo acordo 'stand by' de US$ 30 bilhões veio
para socorrer uma economia quebrada. Sim senhor, a palavra é exatamente
esta. Em condições normais, já não era fácil obter o bilhão de dólares
semanais, indispensável para atender às necessidades de financiamento do
balanço de pagamentos. A tão proclamada vulnerabilidade externa da economia
ficou exposta de corpo inteiro num momento em que o crédito vem escasseando
nas praças financeiras de maior reputação e se torna ainda mais raro nos
países que prometem demandar somas elevadas nos próximos anos.
Peço licença e desculpas para um momento de imodéstia: antes do acordo
prognostiquei que o governo Bush iria fazer o que fosse preciso para impedir
que um 'default' brasileiro desse o golpe de misericórdia na fragilizada
arquitetura financeira global. Bush abandonou todos os princípios
conservadores da gestão republicana que recomendam ou recomendavam "soluções
de mercado" para as crises cambiais e financeiras na periferia, sempre
causadas pelos destemperos dos investidores
gananciosos (infectious greed).
A pressão exercida pelos bancos norte-americanos, revelada pelos jornais
daquele país, sugere que há risco de um colapso sistêmico: sob o angu da
euforia dos anos 90 e das fraudes empresariais, jaz uma montanha de créditos
podres.
Há quem imagine que o sistema bancário americano está adquirindo feições
japonesas. Quando a situação aperta, os mercados perdem o rumo. Em pânico os
protagonistas costumam tomar decisões defensivas que reduzem a liquidez e
estrepam o conjunto da obra. Sem um "emprestador" público de última
instância, a vaca vai para o brejo.
Ainda assim, o socorro do Fundo, arquitetado em conluio com o segundo time
da equipe econômica - o chefe da turma é o ex-esquerdista Amaury Bier -
preparou uma armadilha para o próximo presidente.
Primeiro, o óbvio: trata-se de um empréstimo que deve ser pago ao cabo de
15 meses. Segundo, a redução do piso das reservas para US$ 5 bilhões
representa um risco considerável para o País.
Por estas duas razões, caso as linhas de financiamento privado para o
Brasil - tanto as de curto quanto as de médio e longo prazo - não sejam
restabelecidas nos volumes adequados e os espertos aproveitem a
oportunidade, com aconteceu em 1998, para se mandar com o dólar mais barato,
vamos ficar de calças na mão. É importante que o Banco Central
não permita uma valorização "excessiva" do real: seria prejudicial para as
exportações e facilitaria o envio de recursos para o exterior.
Terceiro, o presidente eleito não terá outra alternativa senão aceitar as
condições impostas pelo acordo no primeiro ano de mandato - sob pena de ser
devastado pela "desconfiança dos mercados".
A estratégia do Fundo Monetário é clara em todas as intervenções: a
prioridade é salvar os credores, seja qual for o sacrifício imposto ao
devedor. Assim foi na década 80 e agora não será diferente. Em 1985, as
equipes econômicas da Nova República encontraram o País paralisado pela
crise da dívida que desatou uma barafunda fiscal e monetária intratável.
Os programas de ajustamento do FMI só fizeram agravar a situação.
É ainda pior a herança que os sábios do tucanato deixam a seus sucessores:
uma economia travada pela combinação entre taxas de juros elevadas, aumento
da carga tributária e superávit fiscal. Em sua entrevista à Folha de S.
Paulo desta sexta-feira (9.8.2002), John Willianson, o pai do Consenso de
Washington, disse o que os seus sequazes brasileiros não têm coragem de
denunciar: não é possível exigir superávits fiscais elevados em uma economia
que apresenta sintomas claros de recessão. Disse mais: aprendeu com a
experiência dos anos 90 que é preciso controlar a entrada de capitais. Vamos
providenciar bolsas de reciclagem no Instituto de Economia Internacional de
Washington para os sábios de bico grande.
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