[R-P] OS DE SEMPRE
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Mar Abr 16 08:00:29 MDT 2002
América Latina
Representantes de Bush se encontraram com aqueles que derrubaram o
presidente da Venezuela
Christopher Marquis
WASHINGTON - Representantes do governo Bush se encontraram várias vezes nos
últimos meses com os líderes da coalizão que derrubou por dois dias no
último fim de semana o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e concordaram
com eles que Chávez deveria ser removido do poder, disseram assessores do
governo na segunda-feira.
Mas os assessores do governo forneceram relatos conflitantes sobre o que os
Estados Unidos disseram para os opositores de Chávez sobre as formas
aceitáveis de derrubá-lo.
Um representante envolvido nas discussões insistiu que os venezuelanos
usassem meios constitucionais, como um plebiscito, para justificar a
derrubada.
"Eles vieram aqui para se queixar", disse um assessor, se referindo ao grupo
anti-Chávez. "Nossa mensagem foi muito clara: há processos constitucionais.
Nós nem mesmo piscamos para ninguém".
Mas um assessor do Departamento de Defesa que está envolvido no
desenvolvimento de políticas em relação à Venezuela disse que a mensagem do
governo foi menos categórica.
"Nós não desencorajamos as pessoas", disse o assessor. "Nós enviamos sinais
sutis, informais, de que não gostávamos daquele sujeito. Nós não dissemos,
'Não ousem', e também não defendemos dizendo, 'Tome aqui algumas armas, nós
ajudaremos vocês a derrubá-lo'. Nós não fizemos isso".
As revelações ocorrem enquanto defensores de direitos, diplomatas
latino-americanos e outros acusam o governo de ter feito vista grossa à
atividades de planejamento de golpe, ou de até mesmo ter encorajado as
pessoas que temporariamente removeram Chávez. Tais ações colocariam os
Estados Unidos em desacordo com os demais membros da Organização dos Estados
Americanos (OEA), que oficialmente condena a derrubada de governos eleitos
democraticamente.
Após a derrubada, o porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, sugeriu que o
governo estava satisfeito com a queda de Chávez. "O governo reprimiu uma
manifestação pacífica das pessoas", disse Fleischer, o que "levou
rapidamente a uma situação muito volátil que resultou na renúncia de
Chávez".
Tal declaração contrastou com a clara posição dos demais países do
hemisfério, que condenaram a remoção de um líder eleito democraticamente.
Chávez se tornou muito impopular junto ao governo Bush devido à sua posição
pró-Cuba e adoção de slogans revolucionários -e, mais recentemente, ao
ameaçar a independência da companhia estatal de petróleo venezuelana, a
Petróleos de Venezuela, a terceira maior fornecedora estrangeira de petróleo
para os Estados Unidos.
Independente de saber ou não com antecedência sobre a ação contra Chávez, os
críticos destacaram que o governo foi lento em condenar a derrubada e que
até mesmo se recusou a reconhecer que ocorreu um golpe.
O resultado, segundo os críticos, é que em seu desejo de se livrar de
Chávez, o governo arranhou sua credibilidade como principal defensor de
governos eleitos democraticamente.
E apesar de negarem ter encorajado a derrubada de Chávez, os assessores do
governo não esconderam seu desprazer com sua volta.
Perguntado sobre se o governo agora reconhecia Chávez como o presidente
legítimo da Venezuela, um assessor do governo respondeu: "Ele foi eleito
democraticamente".
Isto pareceu passar a indicação impressionante de que até mesmo um líder
eleito democraticamente pode não ser visto pelo governo como legítimo, caso
suas ações forem consideradas desagradáveis ou hostis.
Um assessor sênior do governo disse na segunda-feira que o grupo anti-Chávez
não pediu por apoio americano, e que nenhum foi oferecido. Ainda assim,
disse um diplomata americano, Chávez estava tão irritado com o lobby de seus
oponentes em Washington que enviou representantes de seu governo para
defender sua posição lá.
Chávez voltou ao poder no domingo, após dois dias. O governo Bush
rapidamente jogou nele a culpa pelo episódio, apontando que tropas leais a
ele dispararam contra civis desarmados e feriram mais de 100 manifestantes.
Fleischer, o porta-voz da Casa Branca, manteve tal linha de argumento na
segunda-feira, dizendo que Chávez deveria prestar atenção à mensagem de seus
oponentes e unir "todas as forças democráticas na Venezuela".
"O povo da Venezuela enviou uma mensagem clara ao presidente Chávez de que
deseja democracia e reformas", disse ele. "O governo Chávez tem uma
oportunidade para responder a esta mensagem com uma correção do seu curso e
governando de forma plenamente democrática".
No domingo, a conselheira de segurança nacional do presidente Bush,
Condoleezza Rice, expressou esperança de que Chávez lide com seus opositores
de "forma menos ditatorial".
Mas para alguns críticos, foi o governo Bush que demonstrou arrogância ao se
opor à onda de condenação internacional à ação contra Chávez, que foi eleito
democraticamente em 1998.
Arturo Valenzuela, o assessor de segurança nacional para a América Latina do
governo Clinton, acusou o governo Bush de passar por cima de mais de uma
década de tratados e acordos para a defesa coletiva da democracia. Desde
1990, os Estados Unidos repetidamente invocaram tais acordos na Organização
dos Estados Americanos para ajudar a restaurar o governo democrático em
países como Haiti, Guatemala e Peru.
Valenzuela, que agora chefia o departamento de estudos latino-americanos da
Universidade de Georgetown, aqui em Washington, alertou que os países da
região podem ver o apoio tépido à democracia venezuelana como um sinal verde
para uma volta aos anos 60 e 70, quando o poder era transferido de golpe em
golpe.
"Eu acho que é um desdobramento muito negativo para o princípio do governo
constitucional na América Latina", disse Valenzuela. "Eu acho que isto vai
voltar para nos assombrar".
Assessores do governo insistiram que estavam seriamente envolvidos nos
esforços da Organização dos Estados Americanos para determinar o que
aconteceu na Venezuela e restaurar o governo democrático. O secretário-geral
da OEA, César Gaviria, partiu para Caracas na segunda-feira, e a organização
deve se reunir na quinta-feira em Washington.
Mesmo assim, dizem os críticos, houve vários sinais de que o governo
rapidamente apoiou o empresário Pedro Carmona Estanga como sucessor de
Chávez.
Um assessor democrata de política externa reclamou que o governo, em
telefonemas ao Congresso na sexta-feira, informou que Chávez tinha
renunciado, apesar das autoridades agora reconhecerem que não havia
evidência disso.
E no sábado, o governo Bush apoiou a resolução da OEA condenando "a
alteração da ordem constitucional na Venezuela" apenas após saber que Chávez
tinha retomado o poder, disseram diplomatas latino-americanos.
Um assessor disse que os linhas-duras do governo podem ter "se excedido" ao
proclamar a queda de Chávez antes da poeira assentar.
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