[R-P] sobre o golpe
Mario Jose de lima
mjlima en uol.com.br
Sab Abr 13 15:29:41 MDT 2002
Edição Extra:
Como se armou o golpe contra Chávez
Texto denuncia participação da mídia na conspiração e antecipa relançamento
do portal Porto Alegre 2002
Na próxima semana, o portal Porto Alegre 2002 , que debate o Fórum Social
Mundial e as alternativas ao neoliberalismo, voltará a ser atualizado
regularmente. A retomada estava prevista para esta sexta-feira, mas sofreu o
impacto do golpe de Estado que derrubou, um dia antes, o presidente eleito
da Venezuela, Hugo Chávez.
Pedro Carmona, o grande empresário que assumiu o poder graças ao apoio da
cúpula das Forças Armadas, fechou o Congresso e dissolveu a Suprema Corte.
Mesmo assim, a ?grande? imprensa brasileira e internacional evita chamá-lo
de ditador.
O golpe de Estado na Venezuela é sinal de uma grande virada. A partir dos
anos 80, as elites latino-americanas e os Estados Unidos procuraram se
apresentar como partidários do estado de Direito. O fim das ditaduras
militares na região não ameaçou seu poder. Os ?novos? regimes mantiveram o
poder e a riqueza nas mãos de pequenos grupos. Por isso, interessava aos
poderosos erguer a bandeira da democracia.
Desde a última quinta-feira, fica claro quanto oportunismo havia nesta
atitude. Uma campanha de pressões internacionais bastaria para forçar os
golpistas da Venezuela a recuar. Seria suficiente, por exemplo, invocar a
Carta da OEA, que exorta os países da América a não estabelecer relações
diplomáticas com regimes surgidos de ataques às instituições.
Mas esta campanha não virá. Para os EUA e para as elites, a democracia na
América Latina tem um limite. As sociedades e os governos podem agir
livremente, desde que não toquem nas cláusulas pétreas do neoliberalismo.
Podem ser livres, desde que obedeçam. Podem ser democracias, desde que o
povo não governe.
Porto Alegre 2002 publica hoje um texto especial sobre o golpe na Venezuela.
A partir de relatos da imprensa independente, foi possível reconstituir os
acontecimentos que antecederam a derrubada de Chávez. E transparece algo
muito grave: os meios de comunicação venezuelanos e internacionais (em
particular a CNN) tiveram participação destacada na conspiração que derrubou
o presidente constitucional. Esta ação foi tão clara que o jornal mexicano
La Jornada chega a afirmar que houve, em Caracas, um ''golpe midiático''.
Não foi a mídia, é claro, quem afastou Chávez do palácio Miraflores e o
levou preso ao Forte Tiuna, e posteriormente a local desconhecido. Mãos
fardadas fizeram o serviço. Mas a virada das Forças Armadas contra o
presidente e a Constituição foi instigada por uma campanha de desinformação
promovida, de forma coordenada, por quatro das cinco redes de TV
venezuelanas. Na quinta-feira fatídica, elas propagaram três mentiras
essenciais e arrasadoras:
1) O comando das Forças Armadas estaria disposto a destituir Chávez, para
''atender ao clamor popular'';
2) O presidente teria desaparecido;
3) Tropas comandadas pelo governo teriam aberto fogo contra manifestantes de
oposição.
Num país onde já havia conspiração contra o presidente e onde a mobilização
popular para defendê-lo estava em baixa, as duas últimas mentiras chocaram a
sociedade e paralisaram os partidários de Chávez. A primeira tornou-se
verdade ao longo do dia, graças ao métodos de repetição exaustiva ensinados
por um certo estrategista militar próximo de Hitler...
* * *
Não será possível construir um mundo novo sem enfrentar o monopólio das
comunicações. Em sua nova fase, o portal Porto Alegre 2002 (que passará a se
chamar Porto Alegre 2003, quando as mudanças estiverem concretizadas) estará
ainda mais comprometido com esta idéia. Entre as muitas novidades, está a
criação, dentro do portal, do site Ciranda Brasil . Nele, intelectuais,
jornalistas, estudantes de jornalismo, cidadãos comprometidos com o direito
á informação, poderão publicar textos sobre a realidade brasileira e os
meios para transformá-la.
O novo portal oferecerá, em seis idiomas, material farto e profundo sobre a
globalização, as alternativas e o Fórum Social Mundial. Para mantê-lo sempre
atualizado, serão formadas equipes de colaboradores -- os ''cirandeiros''.
Eles atuarão como pesquisadores, tradutores, repórteres e redatores. O
projeto será difundido através das edições de Outras Palavras, o boletim que
você lê agora, e que anuncia as atualizações no portal. Os interessados em
assiná-lo podem fazê-lo enviando mensagem vazia (sem título e sem conteúdo)
para outraspalavras-subscribe en yahoogroups.com . Para comunicar-se com nossa
redação desde já, basta escrever mensagem para ciranda en ciranda.net .
* * *
A preparação do Fórum Social 2003, novamente convocado para Porto Alegre,
será um processo fascinante. A contra-ofensiva dos EUA continua (e o golpe
contra Chávez é mais um sinal desta investida). No entanto, o movimento por
um mundo novo também avança, como demonstram a manifestação de 300 mil
contra a cúpula européia em Barcelona, em março, e a mobilização da
sociedade italiana contra Berlusconi e suas contra-reformas neoliberais (3
milhões em Roma em março, greve geral prevista para 16 de abril).
Será ótimo ter a sua companhia nesta caminhada. Enquanto não vêm as
novidades, fique com nosso texto sobre o golpe na Venezuela.
Boa leitura, ótimo fim de semana
Equipe Porto Alegre 2002 / Ciranda Brasil
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