[R-P] Argentina

Mario Jose de lima mjlima en uol.com.br
Mie Abr 10 17:33:01 MDT 2002


Argentina: uma crise de novo tipo

Por Emir Sader

 Não dá para comparar nem com a crise mexicana de 1994, nem com a asiática
de 1997 ou com a russa de 1998 ou a brasileira de 199, embora a crise
argentina tenha a mesma linhagem - crise produzida pelas políticas
neoliberais. Se ela é detonada por mecanismos similares às outras - câmbio
supervalorizado, endividamento, incapacidade de manter níveis de empréstimo,
em suma, financeirização que torna o país refém da especulação -, o período
é diferente. Em 1994, por exemplo, quando a euforia da expansão
norte-americana recém começava, os EUA abafaram a crise mexicana
imediatamente com um empréstimo gigante. O FMI atendeu sucessivamente à
Coréia do Sul, à Rússia, ao Brasil, à Turquia, entre outros países em crise.
Os efeitos das crises foram relativamente circunscritos ao âmbito
financeiro, e os países, se não se recuperaram, pelo menos recompuseram o
fôlego para seguir a batalha de Sísifo de renegociação constante de suas
dívidas. Até mesmo a Rússia - que chegou a decretar a moratória -, graças à
elevação dos preços e da demanda externa de petróleo e de gás, conseguiu se
recuperar relativamente.

Desde o ano passado, no entanto, o cenário geral mudou, e este é o primeiro
dos aspectos que faz da crise argentina uma crise de novo tipo. Em primeiro
lugar, porque a economia norte-americana ingressou em um novo ciclo
recessivo, encerrando os anos de expansão que a marcaram - assim como,
economicamente, a economia mundial - na década de noventa. O clima geral é
recessivo, nenhuma outra das grandes economias escapa a ele,
generalizando-se para a tríade da economia capitalista avançada - EUA,
Europa ocidental e Japão - o mesmo cenário.

Nesse marco, o governo Bush encontrou maiores facilidades para impor uma
nova política ao FMI - a de desresponsabilizar-se das falências das
economias periféricas endividadas, deixando que quebrem e se acertem
diretamente com os seus credores. Há uma diferença notória entre a
assistência imediata ao México ou ao Brasil e a atitude em relação à
Argentina, por exemplo. (Caso diferente é o perdão de 30% das dívidas do
Paquistão e renegociação do restante, resultado da política de "nova guerra
fria" imposta pelos EUA a partir de 11 de setembro passado.)

Por outro lado, anos a mais de decomposição das relações sociais como
resultado das políticas neoliberais - de que a financeirização por cima e a
informalização das relações de trabalho por baixo são alguns dos resultados
mais graves - corroeram a coesão social das sociedades latino-americanas.
Assim, a crise argentina, iniciada como uma crise financeira, tornou-se
rapidamente uma crise social, política e ideológica - em outras palavras,
numa crise hegemônica, em que os antigos consensos já não têm capacidade de
coesionar minimamente a sociedade e os novos ainda não nasceram.

Por mais que os defensores das políticas neoliberais se apliquem
cotidianamente em tentar atribuir a crise argentina a fatores contingentes -
gastos excessivos de Menem, por exemplo -, foi a forma mais extrema das
políticas cambiais neoliberais - a paridade peso/dólar - o que terminou
fazendo explodir à superfície a crise que vinha se gestando há tempos. Nas
palavras de Bertold Brech, os excessos revelam a essência de um fenômeno.

Assim, o remédio extremo da paridade apenas exacerbou a natureza
insustentável e socialmente cruel das políticas de ajuste fiscal, cuja crise
ameaça estender-se a países como o México e o Brasil, não por seu poder de
alastre desde fora - o que apenas multiplicaria seus efeitos -, mas pela
presença dos mesmos elementos de financeirização e de desagregação do
Estado, da vida política, das instituições sociais, das relações de
trabalho - em suma, do conjunto das relações sociais nas nossas sociedades.
O que mudou não é a Argentina apenas, é o cenário geral, com o esgotamento
das políticas neoliberais, com nossas sociedades pedindo angustiadamente
projetos que as superem, para que cheguemos finalmente ao tão ansiado
pós-neoliberalismo. A crise argentina revela os limites de um modelo de
extrema mercantilização da sociedade, em que tudo se vende, tudo se compra,
tudo tem preço, e o que não logra cotizar-se no mercado apodrece
marginalizado pelo poder do dinheiro.

No limite, nossas sociedades têm diante de si a alternativa de se tornarem
definitivamente shopping centers - em que só há lugar para alguns, os de
alto poder aquisitivo, os outros tendo que ser contidos fora por cordões de
segurança, para viabilizar sociedades de apartheid social - ou de se
reconstruírem como praças públicas, com lugar para todos, fundadas nos
direitos universais, e não nas leis do mercado, que selecionam e excluem
pelo dinheiro.

É O FIM

O que você faria com uma empresa de assessoria que tivesse prognosticado
para o ano passado um crescimento notável da economia dos EUA de 4,2%, que
tivesse advertido que os problemas eventuais viriam das pressões
inflacionárias - produto da forte expansão - e que não haveria nenhum risco
de estouro da bolha especulativa, seja nas empresas de alta tecnologia, seja
no conjunto da economia? Fecharia, não? É o caso do FMI, responsável por
essas previsões.

Emir Sader é sociólogo.








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