[R-G] América Latina: aprofundamento ou restauração?

Yoshie Furuhashi critical.montages at gmail.com
Sat Jul 4 21:05:48 MDT 2009


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04/07/2009

América Latina: aprofundamento ou restauração?

Três acontecimentos simultâneos refletem, em direções distintas, os
dilemas latinoamericanos atuais: o golpe em Honduras, a derrota
eleitoral dos Kirchner na Argentina e a escolha dos candidatos a
presidente para as eleições uruguaias. Os três apontam para o tema da
continuidade e aprofundamento dos processos de transformação que estão
vivendo grande parte dos países latinoamericanos ou a restauração
conservadora, com o retorno da direita aos governos da região.

O golpe em Honduras – que tem possibilidade de ser revertido pela
rejeição internacional e pelas mobilizações populares internas –
aponta para a tentativa do presidente Zelaya de obter um segundo
mandato via referendo, para dar continuidade ao processo recém
iniciado de transformações internas na contracorrente do
neoliberalismo até então vigente no país. O golpe, por sua vez, dado
pela cúpula do Judiciário, das FFAA e do Congresso, expressa a inércia
das forças conservadoras que sempre dirigiram a Honduras. Zelaya,
filho desgarrado do Partido Liberal que, em rodízio com o Partido
Conservador, dirigiram por décadas ao país, de forma praticamente
harmônica.

Como sinal dos tempos e da perda de influência norteamericana,
especialmente durante o governo Bush, a onda de novos governos no
continente chegou à América Central, através da Nicarágua, de Honduras
e, mais recentemente, de El Salvador. A direita, comandada pela
imprensa oligárquica – similar à que se estende a praticamente todo
continente -, se precipitou e pode pagar um preço caro por isso.
Zelaya termina seu mandato no fim do ano, já havia afirmado que a
consulta informal, caso levasse à introdução da reeleição, não
afetaria seu mandato, que terminaria em janeiro de 2010.

Confirmando que se pode tudo com as baionetas, o golpe dificilmente
viabilizará o governo que pretende se instalar. Resta saber se Zelaya
retornará enfraquecido, cumprindo o final do mandato seu capacidade de
iniciativas, abandonando o referendo. Ou se sentirá fortalecido,
retomando a consulta e punindo pelo menos alguns dos golpistas. Caso
ocorra esta segunda hipótese, o tiro terá saído pela culatra para a
direita e Zelaya poderá dar continuidade ao processo de transformações
recém iniciado em Honduras. Se a ofensiva fracassa, como havia
acontecido com as aquelas contra Hugo Chavez, contra Lula, contra Evo
Morales e contra os Kirchner, se consolida a idéia de que o contexto
continental impede novos golpes militares, notícia importante para os
governos progressistas e, na área, para o recém começado governo de
Mauricio Funes em El Salvador, em particular.

A derrota eleitoral do governo Kirchner se dá no marco da
contraofensiva da direita, iniciada com a mobilização do campo contra
a elevação de impostos, no cenário dos ganhos monstruosos que,
especialmente a exportação de soja, permitiu nos últimos anos na
Argentina. Aproveitando-se do erro do governo de taxar a grandes,
médios e pequenos proprietários de maneira indiferenciada, favorecendo
a unificação do campo sob a direção dos grandes exportadores sojeros,
a direita conseguiu articular aliança desses setores com a classe
média branca de Buenos Aires, colocando o governo na defensiva. As
eleições refletem essa mudança na relação de forças entre governo e
oposição, com o governo perdendo maioria no Parlamento e condenando a
Cristina Kirchner a difíceis 2 anos e meio, alem de alentar a direita
para a possibilidade de conseguir derrubar o primeiro dos governos
progressistas eleitos na região.

No Uruguai, o candidato que mais diretamente expressa a possibilidade
de aprofundamento da superação do modelo herdado por Tabaré Vasquez, é
seu ex-ministro da agricultura, Pepe Mujica, ex-dirigente tupamaro,
que derrotou o candidato da preferência de Tabaré, o moderado Danilo
Astori, ex-ministro da economia. Aqui, sendo favorito para ganhas as
presidenciais, Mujica aponta para o aprofundamento das transformações
começadas no Uruguai, enquanto na Argentina se aponta para o risco de
uma restauração conservadora e em Honduras, depende do desenlace da
crise. Trata-se dos mesmos dilemas do Brasil nas eleições
presidenciais de 2010.

Postado por Emir Sader às 05:29



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